Um balanço realista do que foi, nos últimos anos, a evolução da economia na zona euro, evidencia um retrato desolador causado pela irracional e injusta política de austeridade, com a estagnação, o desemprego e as crescentes desigualdades sociais a constituírem um séria ameaça para o futuro da União Europeia como um espaço de paz social e de prosperidade.
Surge agora, na Grécia, a proposta de um pequeno partido, o Syriza, para um caminho alternativo, de cancelamento negociado de parte da dívida, mantendo-se no quadro da moeda única. O que, desejavelmente, poderia ser aproveitado pelos líderes europeus como uma oportunidade para mudarem de política é para muitos algo impossível, por razões de ordem legal ou política.
São bem claros os motivos da proposta grega, confrontada com a impossibilidade de, nas condições actuais, com uma dívida de 175% do PIB, agravada com um cenário de deflação, a poder algum dia vir a pagar.
Todos o sabem, e como escreve Wolfgang Münchau no artigo “Political extremists may be the eurozone’s saviours”, publicado no Financial Times on-line de 4 de Janeiro, a política oficial da Grécia e da União Europeia tem consistido em adiar o inevitável, ou seja, aumentar o prazo dos empréstimos e fazer de conta que estes se podem vir a reembolsar.
De resto, como Münchau também refere, mesmo em países em aparentemente melhor situação, como a Espanha, o melhor indicador para avaliar a gravidade da depressão na zona euro, que é a taxa de emprego, caíu de 66% da população em idade activa para 56% entre 2007 e 2014, e na Grécia está abaixo de 50%. E conclui que estes dois países, com as políticas actuais, não têm qualquer possibilidade de voltar a níveis normais de actividade económica dentro de uma geração.
É fácil admitir que este mesmo cenário seja válido para outros países, Portugal incluído, se não nos soubermos mobilizar para exigir as reformas que fazem falta, bem diferentes das que nos querem continuar a impor.
É ainda muito incerto qual será o resultado da estratégia do Syriza, em vésperas de eleições gregas. Como sempre tem acontecido últimamente, será determinante a atitude da Alemanha, perante a timidez ou a passividade dos seus actuais parceiros no Conselho de Ministros.
Certo é que aos gregos ficamos a dever a coragem de avançar com uma proposta realista, e se o risco de contágio do abandono da zona euro por parte da Grécia parece já não ser tão assustador para quem está na liderança da Europa, por serem hoje menores as perdas associadas, talvez tenha sido aberta uma porta para um futuro de esperança em benefício de outros europeus vítimas da austeridade.
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12 janeiro 2015
07 setembro 2014
O novo plano do BCE para relançar a economia
Para surpresa de muitos analistas, o
Presidente do BCE decidiu, apoiado numa maioria de votos no Conselho de
Governadores, cortar a taxa de juro das principais operações de refinanciamento
do Eurosistema, ao mesmo tempo que anunciou o lançamento de um programa de
compra de activos não financeiros do sector privado, com vista a facilitar o
crédito à economia.
Sendo já muito baixas, antes daquela decisão,
as taxas de juro do BCE, o impacto de uma nova descida não seria, por si só,
medida muito eficaz para o fim em vista, prejudicada como tem sido a economia
europeia por insuficiente procura, como o próprio Mario Draghi reconhece.
Já o programa de compra de activos pode vir a
revelar-se um instrumento útil da política monetária para relançar o
crescimento, ainda que Mario Draghi chame a atenção para a necessidade de
concretizar, simultâneamente, reformas estruturais e políticas orçamentais,
enquadradas estas pela aplicação, com
flexibilidade, das normas do Pacto de Estabilidade e Crescimento.
Como se imagina, não deve ter sido fácil esta
decisão do BCE sabendo-se como alguns países, a começar pela Alemanha, receiam
um processo inflacionista que poderia ressurgir como efeito de medidas
expansionistas.
É pois de saudar que, pelo menos nesta
ocasião, não prevaleceu a submissão à vontade do mais forte.
No início do mandato de um novo Presidente da
Comissão Europeia (o Vice-Presidente da Comissão esteve presente na reunião do
Conselho de Governadores do BCE), talvez este exemplo possa ser inspirador de
novas atitudes por parte da Comissão.
O que pode esperar-se de um programa de
compra de activos como o agora anunciado?
Nas questões colocadas a Mario Draghi, durante
a conferência de imprensa em que ele foi anunciado, alguém pediu uma
clarificação da definição de “quantitative
easing”, já que a dimensão do programa não lhe parecia ser suficientemente
elevada para entrar nesta categoria. A resposta foi clara: A “Q.E:” não tem a
ver com a dimensão, mas sim com o tipo de intervenção, tanto pode levar à
compra de activos do sector privado como aos do sector público.
Em todo o caso fica a dúvida: terá sido dado
agora pelo BCE um primeiro e modesto passo a que se seguirão outros de maior
dimensão?
O economista alemão Wolfgang Münchau num
artigo publicado no Financial Times “on-line” de 5 de Setembro com o título An astute move, but it is not the “big one” ,
considera que o plano de compras de activos do sector privado não será
suficiente e admite que, antes do final do ano, terá lugar um multi-trillion heavy programme to buy
government bonds, capaz de tirar a economia da eurozona do seu estado
comatoso.
As políticas monetárias têm as suas próprias
limitações, e Mario Draghi aproveitou para acentuar a urgência dos responsáveis
políticos adoptarem políticas orçamentais adequadas, isto é, redução de
impostos ou estímulo ao investimento, sem o que o resultado deste plano do BCE
pode vir a ser comprometido.
O desafio é enorme, mas as possibilidades de
travar o desemprego e a recessão são reais. Assim haja sabedoria para tomar as
medidas que se impõem nas diferentes instâncias europeias e nacionais em ordem
ao bem-comum.
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