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13 março 2012

Jovens vs Pobres

“Precariedade faz com que jovens sejam os menos solidários com os pobres”.
Foi este o título em destaque com que no jornal Público (5/02/2012) se apresentava, numa boa síntese, um estudo do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa relativo às atitudes dos portugueses sobre as desigualdades. Embora tenha passado já mais de 1 mês sobre essa referência, a recente Semana Nacional da Cáritas (com o lema “Edificar o Bem Comum: uma tarefa de todos e de cada um”) e a consequente atenção aos problemas da pobreza, justificam chamar a atenção para esse estudo do ICS, que tem por base um inquérito de 2011 efectuado no quadro do “Barómetro da Qualidade da Democracia”. O estudo tem o título “Direitos Iguais, Vidas Desiguais” e é da autoria dos investigadores Filipe Carreira da Silva, Mónica Brito Vieira e Susana Cabaço.
Não vou repetir o trabalho de síntese feito pela jornalista Clara Viana. Apenas pretendo retomar a questão que o título da peça jornalística enfatiza: consequências que a precariedade terá sobre as atitudes de preocupação dos jovens para com os pobres ou, por outras palavras, consequências sobre a empatia.
É certo que os autores do estudo do ICS não são tão peremptórios como o título do jornal parece dar a entender. Pois dizem textualmente (pag.17): “Se são os mais jovens que menos peso atribuem às dificuldades dos mais pobres, talvez (sublinhado meu) a sua atitude esteja parcialmente explicada pelo seu autoposicionamento subjectivo na classe média, pela forte incidência do desemprego jovem, pela precarização do trabalho, e pela apreensão quanto ao seu próprio futuro, designadamente em termos da existência das prestações sociais que hoje assistem à classe média e aos mais pobres”. Também é de assinalar que este estudo não reflecte uma atitude de indiferença da população portuguesa para com os mais pobres, antes pelo contrário, pois 82% dos inquiridos concordam com a afirmação “as pessoas mais pobres estão a viver tempos muito difíceis, porque não têm acesso às recompensas dos ricos e são pouco apoiadas socialmente”. Apesar do prudente “talvez” (pois o estudo não parece correlacionar precariedade e atitudes face às desigualdades), é natural que quanto mais inseguros e sujeitos a situações de precariedade de trabalho mais os jovens tendam a ter atitudes de “cada um por si” e a reduzir a empatia e a atenção ao outro. Mas, apesar de integrarem a minoria (não se esqueça que são 82% os portugueses que se preocupam…), o que é preocupante como tendência é que os jovens, sejam os que menos se interessam pelos problemas dos mais pobres.
A relação da precariedade de trabalho e de vida com a não preocupação com os mais pobres mostra como políticas de emprego podem corroer valores de coesão social. Os valores, nomeadamente os valores altruístas que desenvolvem comportamentos de empatia e de atenção e cuidado para com o outro, são efectivamente estruturantes da convivência social, não só ao nível dos comportamentos de proximidade como ao nível das percepções ou desejos de organização da sociedade. Mas os valores são frágeis, não estão dados “para todo o sempre”. O deixar de se preocupar com os mais pobres dificultará a prática da caridade, a todos os níveis de “atenção ao outro”, ou seja de agir e pensar que “edificar o bem comum é tarefa de todos e de cada um”. A precariedade de trabalho e de vida pode contribuir para a “A corrosão do carácter” pois faz parte das “consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo”, o que equivale a erosão dos valores. Entre aspas estão o título e subtítulo do livro – de 1998 – do sociólogo americano, Richard Sennett, que o termina com esta frase que devia dar muito que pensar: ”…um regime que não dá aos seres humanos razões profundas para cuidarem uns dos outros não pode manter por muito tempo a sua legitimidade”.

08 agosto 2011

Pequenos-grandes abalos nos mercados financeiros

Por estes dias, os líderes europeus multiplicam contactos e as instituições financeiras promovem reuniões de alto nível. Tudo porque uma agência de rating decidiu diminuir a classificação dos títulos de dívida dos Estados Unidos, por risco de incumprimento e existe o justo receio de que os mercados reajam, agravando, ainda mais, a periclitante situação monetária e financeira em que o Mundo se encontra.

Acho bem que os responsáveis se preocupem seriamente com o que está a suceder no sistema financeiro globalizado, e manifestamente desgovernado, e penso que tardam decisões políticas que travem este “modelo de economia de casino” para onde estamos a ser conduzidos pelo poder crescente (e nada democrático, diga-se!) dos mercados financeiros. Mas de pouco valerão as soluções de tipo paleativo e os correctivos de curto prazo, se não se encarar a necessidade de uma reforma profunda de todo o sistema financeiro (e monetário) que o reposicione na rota de onde nunca deveria ter sido - o de agir como veículo ao serviço de uma economia real dirigida ao desenvolvimento e ao bem-estar das pessoas e dos povos.

A este propósito, recordo as palavras do Papa Bento XVI na encíclica A caridade na Verdade publicada em 2009, quando afirma:
É preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento.
… o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento.
… Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os aforradores.

11 janeiro 2011

Que grande desafio!

O “post” de ontem de Mário Murteira “2011, UMA ODISSEIA NO ESPAÇO” termina com um grande desafio para que os cristãos do Século XXI descodifiquem a sua fé “num Cristo determinante na História humana” de modo a que, em vez de “um objecto insólito”, essa fé seja algo “ao serviço, verdadeiramente, duma Nova Economia, que será também, necessariamente, uma Nova Sociedade”.
Penso que é o que vamos tentando fazer neste blog. Mas logo que vi o “post”, ocorreu-me pegar na encíclica “Caridade na Verdade”, não sem antes ter esboçado a seguinte sequência de palavras e expressões:
Cristo;
“O homem – Deus – ou o sentido da vida” (de Luc Ferry”, original francês de 1996 , ed. Grasset);
“humanização do divino e divinização do humano” (evolução do contexto sociocultural do cristianismo desde o século XVIII até aos dias de hoje, segundo L. Ferry);
“desenvolvimento humano” no sentido da “plenitude” (transcendente, para uns, inalcançável, para todos, mas por isso mesmo sempre procurado e procurada…);
dignidade humana, valor síntese, (mas que, na fé cristã, decorre de Cristo “Deus-Homem”);
“Nova Sociedade”;
“Nova Economia” (propositadamente, altero a ordem que têm no texto de Mário Murteira).
Peguei então na encíclica e no capítulo III intitulado “Fraternidade, Desenvolvimento Económico e Sociedade Civil” que começa por realçar a importância do dom e da gratuitidade, retiro para destacar, citando, o seguinte excerto:
Na época da globalização, a actividade económica não pode prescindir da gratuitidade, que difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justiça e o bem comum nos seus diversos sujeitos e actores. Trata-se, em última análise, de uma forma concreta e profunda de democracia económica. (nº 38)
E como, neste blog, temos dado destaque ao conceito de democracia económica, por aqui me fico. Isto não é mais que um grão de areia para tamanho desafio!