25 julho 2021

O aumento das desistências no Ensino Superior: até onde vai a culpa da pandemia?

 

Os órgãos de comunicação têm vindo a informar sobre o aumento de desistências no Ensino Superior (ES), estimando-se em menos 11,3%  o número dos alunos matriculados em 2019/20 face a 2018/2019, segundo o portal INFOCURSOS (https://infocursos.mec.pt/).

É importante que se caracterize bem a situação correspondente àquele período, separando as águas face àquilo que virão a ser, já posteriormente, as consequências da pandemia de COVID -19, cujos efeitos se começaram a sentir no nosso País em Março de 2019. Ora, as matrículas e inscrições no ES relativas ao ano lectivo de 2019/20 já há muito tinham sido feitas quando os efeitos da pandemia nos atingiram.

Não cabe neste espaço proceder a uma análise aprofundada das razões daquelas desistências. Mas diversos estudos anteriores, conduzidos quer por nós quer por outros investigadores, têm mostrado a importância de que se revestem as medidas de apoio social directo e indirecto aos estudantes do ES nas decisões e possibilidades de prosseguimento e conclusão daquele grau de ensino.

Passemos, então, em breve revista, um conjunto-chave de indicadores estatísticos que reportam àquelas medidas de apoio, no seu comportamento nos últimos anos em Portugal. Antes de mais, das despesas globais do Estado com educação em percentagem do PIB, o mínimo que se pode dizer é que tiveram uma evolução errática ao longo destes últimos 6 anos, com uma queda de cerca de 10% em 2018, embora com uma recuperação posterior. O que vai a par com a ausência de uma estratégia para a educação e ES, tantas vezes referida.  Vejamos, mais em pormenor, o Número de Bolsas atribuídas em percentagem dos Estudantes no ES e a Evolução das Despesas do Estado com Acção Social, como se descreve no gráfico. E tenhamos em conta que é, portanto, contra este cenário que deverão vir a confrontar-se, em devido tempo, os efeitos da pandemia: 




 

21 julho 2021

Não burocraticamente...


A expressão que mais me chamou a atenção quando Angela Merkel, numa das zonas mais afectadas pelas catastróficas cheias, se referiu à necessária e urgente ajuda, foi “dar a ajuda imediata não burocrática” (sublinhado meu), pois tudo se deve fazer para que o dinheiro “chegue depressa às pessoas”, e acrescentava: “eu espero queseja uma coisa de dias”. Claro que a reconstrução e especialmente das infraestruturas exige muito mais tempo que dias ou semanas.

Nesse órgão de comunicação social alemão, onde vi a reportagem ontem, dizia-se que hoje, quarta-feira, 21 de Julho, o governo decidiria sobre o programa financeiro de ajuda imediata. E assim foi. Hoje, no mesmo órgão de comunicação social pude ler, às 13h30, que praticamente uma semana depois das devastadoras cheias, o governo federal decidiu as ajudas imediatas para as regiões afectadas pelas cheias, conforme anunciou o ministro das finanças Olaf Scholz (SPD). Para começar, 400 milhões de euros (metade do governo federal e a outra metade a gerir pelos estados federados atingidos). E também ele falava no “não burocraticamente” ao dizer “faremos tudo o que é necessário”. A mesma mensagem foi dada pelo ministro do interior, Seehofer (CDU) : “trata-se de apoiar pessoas que perderam completamente tudo”.

Bem, poderá dizer-se: mas onde está a novidade?, não é a Alemanha um país rico, muito longe dos problemas de dívida de países como Portugal? Aliás, nem admira que a nossa comunicação social não fale disto.

O ponto é que não se trata apenas da rapidez de resposta. É que o “não burocraticamente” implica não só a consciência da necessidade absoluta em que se encontram as pessoas, nem mesmo de que a catástrofe é já uma consequência das alterações climáticas (como acentuou o ministro Scholz), implica também que se confia nos cidadãos, ao não fazer depender a ajuda da “prova de necessidade” (como mostra o ministro do interior Seehofer) perante perdas evidentes. Daqui a Portugal a distância já não é da dimensão de quilómetros, é da capacidade de afastar a burocracia quando a necessidade é evidente.

06 julho 2021

Os Salários em Tempo de COVID19

 

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (https://www.ilo.org/global/research/global-reports/global-wage-report/lang--en/index.htm), os salários mensais de dois terços dos países onde existem dados oficiais caíram ou cresceram mais devagar nos primeiros seis meses de 2020, em resultado da pandemia do COVID19.

De referir, contudo, que num terço dos países que divulgaram informação, verificaram-se subidas nos salários, justificadas pelas perdas de emprego de trabalhadores com baixas remunerações, cuja saída fez subir a média.  

Os resultados revelam que foram as mulheres e os trabalhadores pior pagos os desproporcionalmente mais afectados pela crise. Nos países onde foram tomadas medidas para preservar o emprego, os efeitos da crise foram, contudo, mais sentidos nas descidas dos salários do que na perda massiva de trabalho.

Sem os subsídios aos salários, o quantitativo médio dos salários perdidos teria sido da ordem dos 6,5%, tendo estes subsídios compensado cerca de 40% deste valor. No entanto, os dados recolhidos variam significativamente segundo o grupo de trabalhadores. Sem os subsídios, as mulheres teriam perdido 8,1% dos salários, em comparação com os 5,4% dos homens. Por sua vez, os 50% dos trabalhadores pior pagos teriam perdido 17,3/% dos salários, se não existissem os subsídios.

De acordo com o Diretor Geral da Organização Geral do Trabalho, Guy Ryder, o crescimento das desigualdades proporcionada pela COVID19 poderá ser devastador. Defende ele que “precisamos de políticas salariais adequadas, que tenham em conta a sustentabilidade dos empregos e das empresas e que estejam também focadas nas desigualdades e na necessidade de uma procura sustentada. “Se quisermos construir um futuro melhor teremos também que lidar com questões desconfortáveis, como saber porque é que empregos com alto valor acrescentado, como é o caso dos cuidadores e dos professores, estão muitas vezes ligados a salários baixos”

Uma “revolução” no Ensino Superior? E se sim … a quem interessa?

Nos últimos dias os jornais têm vindo a fazer eco de uma anunciada "revolução no Ensino Superior (ES)". Infelizmente já estamos a habituar-nos a estas parangonas e letras de caixa alta. Mas interessa que nos questionemos sobre o que possa estar, de facto, por detrás disto.

Como se sabe, as restrições impostas pela pandemia de COVID-19 levaram à necessidade de substituir as aulas presenciais por modalidades diversas de ensino à distância, também no ES. Assim aconteceu em diversas instituições de ensino, no país e fora dele.

Ora, o que aparenta estar senão em curso, pelo menos em mente, sob a capa daquela “revolução”, é nem mais nem menos do que um aproveitamento desta situação pandémica para induzir no ES uma quase total erradicação das aulas presenciais. Com vantagens para a política de recursos humanos, provavelmente.

Mas não é necessário que se reveja o actual “figurino” do ES?

 Certamente que sim, diversos estudos têm apontado nesse sentido e, também, alguns que temos vindo a desenvolver no âmbito deste GES. Temos vindo a analisar, e a referir, que se constata uma grande falha de formação teórica ao nível da Filosofia das Ciências, da Epistemologia, da Ética, da História das Ciências, entre outros domínios. E que essas lacunas são fatais para a formação criteriosa de profissionais conscienciosos e socialmente responsáveis. Também temos denunciado a grande limitação existente na formação em contexto real, desde logo em Economia, mas profissionais de outros domínios se queixam do mesmo. Não é, no entanto, legítimo que se deduza que se deva proceder a uma limitação da mancha das aulas teóricas a favor de um incremento de tempos práticos e situações de contacto com a realidade: ambas são necessárias!

Mais abusivo se torna, ainda, associar aulas teóricas a aulas que possam e devam transitar, generalizadamente, para modalidades de ensino online, como parece deduzir-se dos "fumos de informação" entretanto propalados. Com efeito, há algum diagnóstico sério feito nesse sentido que baseie esta eventual decisão política? Não, não há. Infelizmente.

Mas a nós interessa-nos conhecer a realidade. Assim, e por exemplo no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), no primeiro semestre da pandemia procedeu-se à quase completa substituição de aulas presenciais por modalidades diversas de ensino à distância. Mas constatando-se os efeitos, decidiu-se enveredar no semestre seguinte, e ainda em pandemia, por um regime misto: oferecendo simultaneamente aulas presenciais e ensino à distância e organizando a formação “em espelho”, isto é, de modo que metade dos alunos se distribuíssem por aquelas modalidades e trocando entre si de duas em duas semanas.

Estamos neste momento a explorar os resultados de um inquérito que visa, entre outros aspectos, proceder à comparação entre aqueles dois semestres no ISEG. Embora ainda em fase muito embrionária, os resultados apontam para uma preferência nítida pelo segundo regime, valorizando muito mais os alunos as aulas presenciais, seguidas das aulas online síncronas, e do mesmo modo o esclarecimento de dúvidas e as tutorias em regime de “face to face” ou, quando muito, em tempo real…

A quem interessa, então, a redução ou eliminação das aulas presenciais?

Não é, de certeza, aos alunos, sobretudo àqueles que se defrontam com maiores restrições financeiras. Com efeito, os primeiros resultados dos inquéritos que estamos a analisar apontam isso mesmo, revelando-se uma forte associação entre ter mais dificuldade em adaptar-se e em identificar as principais dificuldades de aprendizagem e pertencer a famílias menos bem apetrechadas em recursos indispensáveis para o ensino à distância, designadamente uma boa rede de internet, posse de webcam e outros recursos de estudo complementares. Concordando com análises anteriores sobre o sistema de ES no nosso país[1], parece constatar-se mesmo mais: a persistência do efeito de inércia na transmissão intergeracional do “capital escolar”, sobretudo por parte das mães. As mães mais escolarizadas continuam a ter com maior probabilidade filhos que se adaptaram melhor às novas modalidades de aulas e que obtêm melhores resultados, facto que não deixará também de estar eventualmente associado a um maior nível de rendimento familiar, relação ainda a confirmar.

O certo é que, uma vez questionados, os alunos sabem igualmente indicar com grande clareza quais as políticas de educação e de acção social que melhor os poderiam favorecer na transição para um ensino à distância em que se encontrassem mais bem equiparados quanto a oportunidades: políticas de propinas, de empréstimos públicos e bancários, de acção social indirecta, entre outras modalidades.

Será que os decisores políticos estão a levar isto em conta quando nos fazem chegar os primeiros “fumos” da desejada “revolução”? Não temos nenhuma evidência que assim seja.

O mais preocupante é que as preferências e limitações expressas pelos alunos do ES não constituem uma particularidade portuguesa, antes pelo contrário!

Com efeito, os inquéritos lançados no ISEG e que estamos a analisar são suportados por um questionário idêntico ao utilizado pela European Students Union[2] num inquérito sobre os efeitos da COVID lançado num conjunto amplo de países europeus. E cujas conclusões antecipavam já, em geral, as tendências que por cá estamos a começar a obter. Se bem que alguns desses países se note também uma preferência dos decisores políticos por aulas à distância no ES.

Mas teremos nós atendido suficientemente ao nosso atraso relativo em matéria de ES ou estaremos, uma vez mais, a querer apenas seguir a moda? E, ainda para mais, sem cuidar das políticas de promoção da equidade social indispensáveis a um ensino democrático.

 

 Margarida Chagas Lopes

Graça Leão Fernandes

 

 



[1] Como nos demonstram diversos relatórios anuais Education at a Glance  da OCDE (www.oecd.org/eag/).


02 julho 2021

Reler e relembrar: querer é diferente de saber


Hoje fui reler um texto de Stefano Zamagni sobre a “Economia de Francisco” escrito em Assis, em 19 de Novembro de 2020, mais de 18 meses depois da mensagem do Papa Francisco a lançar esse evento que se transformou em movimento.

Em apenas pouco mais de 2 páginas, Zamagni sublinha algumas das relevantes implicações do apelo do Papa a “avançar-se para um tipo diferente de economia, uma economia que inclua e não exclua, que humanize e não desumanize, que cuide do ambiente e não o despoje”.

Seguem-se seis chamadas de atenção sobre as tais relevantes implicações de uma economia diferente, “a economia de Francisco”, não o Papa, mas Francesco, il poverello.

A primeira chamada de atenção tem a ver com o conceito de valor, não apenas o reducionista e exclusivo preço de mercado, próprio de uma mentalidade ”extractivista e tecnocrática” em que, por exemplo, “os bens relacionais, os bens de cuidado, os comuns, os bens de gratuitidade, etc.” não entram na métrica do PIB.

A segunda chamada de atenção lembra a necessidade de as empresas não terem como finalidade (purpose) apenas lucros, mas deverem também ter em consideração “o bem-estar de todos os interessado e atingidos”, os stakeholders, devendo os investidores focarem-se no longo prazo e no impacto social e ambiental do investimento.

De acordo com a terceira chamada de atenção, é urgente que “os sistemas de contabilidade financeira incluam métrica social e ambiental e que o impacto de investimento se torne uma norma de comportamento”.

A quarta chamada de atenção lembra o papel dos governos no estabelecer das regras do que Zamagni designa de “jogo económico com vista ao bem comum e não aos interesses de grupos particulares de actores”, pois “sem regras a globalização torna-se uma selva”.

A sexta chamada de atenção sublinha que a abordagem de “desenvolvimento humano integral" da Laudato sì deve ser participativa e não paternalista.

Deixei para o fim a quinta chamada de atenção, pois foi ela que me levou a partilhar este post. E diz assim:

“Querer fazer a coisa certa é algo diferente de saber que coisa certa fazer, e isto por sua vez é algo diferente de fazer realmente a coisa certa”. Como o português aqui não capta o eloquente jogo de expressões, perdoe-se-me a transcrição do texto inglês: “Wanting to do the right thing is something different from knowing the right thing to do, and that in turn is something other than actually doing the right thing.”. Depois Zamagni lembra que é indispensável o contributo das Universidades e centros de investigação para ver o mundo como ele é, mas também “imaginar como ele devia ser”. Concordo, claro. Mas já que falamos de nova métrica do PIB e, sobretudo, de novas regras, aí o querer acaba por ser mais importante que o apenas saber. Como é que “medimos” se o querer está de facto a querer fazer (e a estimular que se faça) o que é certo? Antes de mais – e isto é um início de resposta –, se nós, os cidadãos (que também somos responsáveis pelas práticas e pelo voto), virmos e sentirmos que há coerência nas medidas tomadas. E, já agora, que se sinta convicção quando se fala em valores que fundamentam essas medidas. Diria que precisamos do que eu arriscaria designar indicadores de querer para uma economia que vá no sentido da “Economia de Francisco”. E, quanto a indicadores, repito o lugar-chave de indicadores de coerência. Parece-me que há aqui trabalho para, entre outros, psicólogos sociais, sociólogos, economistas, gente de ciência política.

 

 

19 junho 2021

A importância do planeamento macroeconómico na construção do nosso futuro

 

É este o tema do debate (Webinar) cuja realização o GES promove na próxima terça-feira, dia 22 às 21,00 h. Quem nele quiser participar poderá fazê-lo via Zoom através do endereço:

https://videoconf-colibri.zoom.us/j/86290360200?pwd=cmZnOWMxbERUTTRXdU9zOEFMSnRaZz09

ID da reunião: 862 9036 0200

Senha de acesso: 082568

Conhecemos o empenhamento que a Prof.ª Manuela Silva teve com o planeamento. Enquanto Secretária de Estado do Planeamento (1977) promoveu a elaboração de um plano macroeconómico que ainda hoje é conhecido como Plano Manuela Silva e no qual continuamos a encontrar muita inspiração para a nossa acção e compromissos actuais.

Temos visto surgir, recentemente, vários instrumentos de decisão política que se apropriam da designação “Plano” (Visão estratégica para o plano de recuperação económica de Portugal 2020-2030 e o PRR – Recuperar Portugal, construindo o Futuro). Dada a importância que têm para o nosso futuro individual e colectivo tem a maior premência interrogarmo-nos sobre se as suas características justifiquem que se designem de Planos e sobre o que importa fazer, caso se justifique, para que se tornem verdadeiros e úteis instrumentos de planeamento.

É o que pretendemos fazer no próximo dia 22.

O Grupo de Economia e Sociedade