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07 março 2012

As mulheres e a Construção de um novo Paradigma para a Economia


A história ensina-nos que as crises, que atravessam as sociedades, não são apenas ocasião de descriação e desconstrução acompanhadas de grandes perdas materiais e de grande sofrimento humano. São-no, certamente, mas podem, também, abrir caminhos de mudança de paradigma económico e societal, levando a novos patamares de conhecimento que permitam formas mais avançadas de organização da vida colectiva.

Face à crise actual, torna-se imperativo um redireccionamento da economia para o bem das pessoas e para o desenvolvimento sustentável.

Para tanto, precisamos de repensar os fundamentos da ciência económica e deixar de persistir numa racionalidade meramente instrumental, afim de passar a re-colocar no centro da construção do pensamento económico as finalidades últimas a prosseguir: a satisfação das necessidades das pessoas e o desenvolvimento sustentável das suas comunidades.

Neste indispensável percurso hermenêutico, que o desenrolar da crise vem reclamando, as mulheres poderão – e deverão – assumir um papel criativo.

Estando, em geral, mais próximas da vida e das necessidades humanas, desenvolvem capacidades próprias para melhor enfrentar os problemas concretos com que deparam.

Encontrando-se menos condicionadas por esquemas do passado, estarão melhor colocadas para inovar com criatividade.

Apesar dos progressos registados, a percentagem de mulheres que ocupam lugares de maior responsabilidade nas administrações das grandes empresas continua reduzida e mesmo na administração pública e nos órgãos de governação política tal proporção fica manifestamente aquém do que corresponderia a uma real paridade. Há, certamente, que corrigir esta situação com meios adequados, incluindo o combate a estereótipos através de informação dissiminada.

Não basta, porém, alcançar cotas estatísticas mais elevadas. Como dizia Alessandra Smerilli, numa conferência em 2009: O papel da mulher na esfera económica nunca será reconhecido plenamente na economia (economy), enquanto a ciência económica continuar a olhar para o mundo com o olhar míope da racionalidade instrumental, e até que um maior número de mulheres passe a ocupar-se da economia como ciência económica (economics). A economia (entendida como ciência), como todas as ciências humanas, vive de facto o problema da dupla hermenêutica: aquilo que se teoriza, uma vez que se teoriza sobre a pessoa alterará de alguma maneira o modo de ser da pessoa.

Em dia Mundial das Mulheres, vale a pena não passar ao lado destas reflexões. Em particular deixo aqui um desafio às mulheres docentes e investigadoras na área da economia para uma reflexão e debate acerca do seu papel na construçõ de um novo paradigma da Ciência Económica. Talvez que a Amonet - Associação das mulheres cientistas - aceite a proposta e a ponha em marcha. Seria um bom marco neste Dia Mundial das Mulheres em 2012.

21 outubro 2011

As mulheres e a Economia

Foi preciso esperar até 2009 para vermos uma primeira mulher laureada com o Prémio Nobel da Economia. Foi a americana Elinor Ostrom, professora na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. O carácter inovador da sua investigação enquadra-se numa perspectiva crítica do paradigma convencional dominante da economia neoliberal e concorre para o reforço da importância do ressurgimento da economia política e da economia institucional.

A crise por que passam as economias ocidentais desde 2008 e que foi desencadeada nos Estados Unidos em 2007 por uma crise financeira sem precedentes, vem pôr a nu os limites da ciência económica convencional e das políticas que nela se fundamentam. Veja-se, por exemplo, o que se está a passar com as chamadas políticas de austeridade e as suas consequências do ponto de vista do desemprego massivo, a desvalorização do trabalho humano, a desigual repartição do rendimento, com maior concentração de riqueza e maior risco de pobreza, a ameaça de estagnação económica.

Enquanto a Ciência económica continuar a ignorar ou subestimar os fins últimos de uma ciência ao serviço da organização social e persistir no mero caminho da sofisticação dos meios e instrumentos ao serviço dos chamados ajustamentos estruturais, desconectando-os dos fins de organização da vida pessoal e colectiva, como sucede com o pensamento económico dominante, dificilmente se abrem espaços de reflexão para o indispensável enriquecimento da teoria económica com a perspectiva de género.

A economia feminista pretende afirmar-se como um campo da ciência económica que procura desocultar a presença das mulheres na economia. Para algumas economistas feministas, os grandes desafios com que se confronta o paradigma da ciência económica contemporânea dizem respeito à necessária reconceptualização dos seus fundamentos, nomeadamente a introdução de um conceito de bem-estar, que compreenda a ideia de bem-estar total, incluindo neste conceito não só um mais elevado rendimento como maior igualdade na distribuição do mesmo, sem ignorar na repartição a variável género. (Mészáros, 2002),

Foi este o tema que apresentei no Congresso internacional da AMONET - Associação Portuguesa das mulheres cientistas, que se realizou nos dias 17 e 18 do corrente mês.