05 setembro 2011

Economics as if People Mattered

On Friday last, Satish Kumar gave a talk at the Gulbenkian, as part of its Environmental Program’s “Reading the Classics.” A friend of EF Schumacher’s, Kumar spoke of his 1973 classic, Small is Beautiful: A Study of Economics as if People Mattered. The interview with Kumar published in today’s Público gives the main points Kumar shared, that our crisis is not one of the economy, but of money, for Nature continues to be productive. The local economy should be the economic base, for it offers work, creates community and is less destructive of the environment. Our obsession with money has led us to forget its purpose, which is to provide for human welfare. Kumar believes we are at the cusp of great transformation.

It is time to re-read Schumacher’s classic, particularly for the way he thought as highlighted by Olivia Bina, respondent at the conference. It is this type of thinking that will bring us out of our crisis that goes beyond finance and the economy, to touch the essence of civilization, which is humanity. An economist, Schumacher thought like a philosopher. He sought not to prove any theory, but to discern on important issues. Adam Smith was firstly a philosopher, and economics started as a branch of philosophy. JM Keynes commented that an economist must be “mathematician, historian, statesman and philosopher,” an integrated, reflective and responsible person. But economists today shun philosophy for its “non-objectivity.”

Schumacher highlighted the dignity of humans and distinguished between jobs and work. Modern economics considers labor as a necessary evil, as a “disutility…a sacrifice of one’s leisure and comfort, and wages are a kind of compensation for the sacrifice.” For Schumacher, there is dignity in work, as it allows humans to develop their faculties, collaborate with others on a common task, and bring forth the goods and services necessary for existence. It is a noble and creative task.

Schumacher criticized the modern industrial system for consuming the very basis on which it has been erected, for living on irreplaceable capital which is treated as income. Money can be created, but natural resources cannot. He advocated “a life-style designed for permanence” and criticized the systematic cultivation of greed and envy to promote unwarrantable wants and unlimited consumption. He questioned “if the foundations are unsound, how could society be sound?” He wrote that “the substance of man cannot be measured by GNP.”

He termed the market the “institutionalization of individualism and non-responsibility.” He highlighted ethics beyond the “sanctity of private property,” and reminded us that Ghandi spoke disparagingly of “dreaming of systems so perfect that no one will need to be good.” He called for wisdom and stressed the importance of human behavior and reflected judgment in building the world we wish to inhabit. It is up to us to say what is “enough,” for economists value growth above all and have no concept of what is “enough.” The trouble he saw with valuing means above ends is that “it destroys man’s freedom and power to choose the ends he really favors.”

Schumacher called for “meta-economics,” dealing with humans and with Nature. He was the first holistic thinker, mindful of the wonder of Nature and of humanity placed within Nature. It is this harmonic living that can bring the happiness much debated today. It is time to re-read Schumacher and reflect on the implications of what he wrote.

03 setembro 2011

Saúde: para além da “troika”!

Acabam de ser conhecidas novas medidas governamentais fortemente restritivas no tocante aos gastos do Estado com a saúde dos portugueses.

O impacto expectável sobre o acesso e a qualidade dos serviços prestados justifica plenamente o crescente mal estar social sentido, quer pelos profissionais de saúde, quer pelo cidadão comum que, na sua (quase) totalidade, sofre já os efeitos das politicas orçamentais restritivas impostas pela “troika”.

Surpreendente é que o governo tenha decidido ir ainda mais longe nos cortes orçamentais da saúde, ultrapassando a receita da “troika”, em vez de promover, com maior determinação, algumas medidas (mais trabalhosas e que implicam processos participativos) potenciadoras de ganhos de eficiência, e assim defensáveis, mesmo sem o aperto orçamental que atravessamos.

Acresce que é ainda desconhecido qual o aumento que sofrerão as taxas moderadoras bem como o que irá ser a factura de medicamentos a cargo dos doentes, sendo certo que as famílias portuguesas são já das mais sobrecarregadas, a nível europeu, com os encargos de saúde.

Por outro lado, alguns indícios são já perceptíveis de que a própria oferta de cuidados de saúde virá a ser restringida, não se sabendo com que extensão e gravidade.

E afinal qual o papel do Estado como garante da protecção da saúde dos portugueses?

Será que o SNS, que tanto contribuiu para a melhoria dos nossos indicadores de saúde, cada vez mais irá ser preterido em benefício de um outro sistema de saúde em que o conceito da solidariedade é interpretado num sentido meramente assistencialista, configurando um verdadeiro retrocesso civilizacional?

01 setembro 2011

Estratégia orçamental – Afinal, para onde vamos?

Foi ontem divulgada a estratégia orçamental do Governo para os próximos 3 anos a qual, como seria de esperar, está em sintonia com o programa de austeridade imposto pela Troika.
Já, a seu tempo, neste blogue, criticamos a estratégia então acordada com o FMI e instâncias comunitárias e pusemos em dúvida a sua eficácia, do ponto de vista dos objectivos visados, nomeadamente o equilíbrio orçamental.
O que então escrevemos adquire, agora, redobrada oportunidade, uma vez que a estratégia que o Governo acaba de apresentar não só contem medidas que excedem a austeridade imposta pela Troika, como envereda por soluções de recurso a novos impostos e cortes na despesa do Estado muito penalizadoras para os grupos sociais de rendimento médio e baixo bem como comprometedoras do crescimento económico e do emprego.
Por outro lado, o que é mais chocante nesta estratégia orçamental apresentada pelo Governo é que ela continua a aceitar, acriticamente, que o desemprego, o empobrecimento das famílias, a desigualdade, a recessão sejam consideradas como meras variáveis de ajustamento do modelo, deixando de lado o indispensável debate em torno de objectivos últimos da economia como sejam: um crescimento sustentável da produção nacional; uma repartição mais equitativa da riqueza e do rendimento; a eliminação da pobreza; a criação de oportunidades de emprego para os activos desempregados; a melhoria do nível e qualidade de vida das pessoas; o melhor aproveitamento dos nossos recursos potenciais; o desenvolvimento equilibrado do território nacional, a sustentabilidade da nossa economia, o nível e qualidade da saúde, da educação, da segurança social, a inovação científica e tecnológica, a segurança interna…
Ninguém de bom senso ignora ou subestima a necessidade de saneamento das nossas finanças públicas, ou não deseja que elas se tornem transparentes e sustentáveis; e também é pacífica a opinião colectiva de que importa corrigir ineficiências que se verificam em alguns serviços públicos, reduzindo despesas desnecessárias.
Porém, sem ter em linha de conta uma clara definição de objectivos finais, fazendo da correcção do desequilíbrio das contas públicas um obsessivo objectivo central, corremos o risco de ficar mais pobres, com menor coesão social, com propensão a maior implosão social, cenário este que, certamente, os autores da actual estratégia orçamental deveriam seriamente ponderar, pois, a verificar-se, é também a correcção do défice e a redução da dívida que ficarão sucessivamente adiadas.
Afinal para onde vamos?

11 agosto 2011

Quem Avalia os Avaliadores?

A recente decisão de uma agência de rating de diminuir a classificação da dívida dos EUA e ameaçar a grande potência de que a manteria sob vigilância, isto é, que poderia haver uma nova diminuição se não ocorresse uma dada concertação política, tem trazido nova e séria turbulência aos mercados financeiros.

Quase há uma semana que as bolsas europeias e americana fecham em queda.

O inesperado aconteceu (já não se tratou de algum país periférico ou uma pequena economia …), foi a maior potência mundial a ver-se sujeita à humilhação de uma baixa de notação e por esse facto a sofrer fortes perdas nos mercados financeiros.

O sucedido deu azo a que se voltasse a colocar a questão da legitimidade com que operam estas agências, ao estenderem a sua actividade às dívidas soberanas. Com efeito, estas não podem ser tratadas como títulos obrigacionistas de uma qualquer empresa privada. A dívida pública e a sua gestão são um instrumento, entre outros, das políticas públicas dos Estados e estes devem continuar a merecer o qualificativo de soberanos.

Ora, o que está a ocorrer com a crescente influência das agências de rating tem a ver com a concomitante perda de poder por parte dos Estados. Temos, pois, razões para pensar que está na hora de os governos e, sobretudo, as instâncias de governação supranacionais imporem regras claras às agências de rating, regulando a respectiva actividade, nomeadamente, no que se refere à proibição de promiscuidade de interesses em relação aos respectivos clientes, ao dever de sigilo (proibição de fuga de informação privilegiada a algumas grandes empresas de gestão de fundos, como parece ter sucedido com a diminuição do rating da dívida americana) e, sobretudo, transparência de critérios e certificação de competência para o exercício da respectiva actividade.

08 agosto 2011

Pequenos-grandes abalos nos mercados financeiros

Por estes dias, os líderes europeus multiplicam contactos e as instituições financeiras promovem reuniões de alto nível. Tudo porque uma agência de rating decidiu diminuir a classificação dos títulos de dívida dos Estados Unidos, por risco de incumprimento e existe o justo receio de que os mercados reajam, agravando, ainda mais, a periclitante situação monetária e financeira em que o Mundo se encontra.

Acho bem que os responsáveis se preocupem seriamente com o que está a suceder no sistema financeiro globalizado, e manifestamente desgovernado, e penso que tardam decisões políticas que travem este “modelo de economia de casino” para onde estamos a ser conduzidos pelo poder crescente (e nada democrático, diga-se!) dos mercados financeiros. Mas de pouco valerão as soluções de tipo paleativo e os correctivos de curto prazo, se não se encarar a necessidade de uma reforma profunda de todo o sistema financeiro (e monetário) que o reposicione na rota de onde nunca deveria ter sido - o de agir como veículo ao serviço de uma economia real dirigida ao desenvolvimento e ao bem-estar das pessoas e dos povos.

A este propósito, recordo as palavras do Papa Bento XVI na encíclica A caridade na Verdade publicada em 2009, quando afirma:
É preciso que as finanças enquanto tais — com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua má utilização que prejudicou a economia real — voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produção de riqueza e o desenvolvimento.
… o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento.
… Os operadores das finanças devem redescobrir o fundamento ético próprio da sua actividade, para não abusarem de instrumentos sofisticados que possam atraiçoar os aforradores.

05 agosto 2011

Hamster impossível

Lembrada de que a imagem vale mais do que mil palavras, proponho que vejam este pequeno .filme e depois pensem nas lições do hamster impossível e actuem em conformidade.
Claro que qualquer semelhança com a nossa realidade de crise sistémica não é pura coincidência

03 agosto 2011

Do “dinheiro ao serviço da economia” à “economia ao serviço do dinheiro”

Num post anterior destaquei a importância da compreensão do fenómeno da financeirização da economia e da necessidade de, na economia de hoje, se possuir um entendimento adequado do seu significado. É o que pretendo abordar neste post.

Todos sabemos do que trata a economia: adequação de meios para a produção de bens e serviços susceptíveis de satisfazer necessidades. Já há muitos, muitos anos, vivia-se em economia de subsistência, isto é, cada um, cada família, mobilizava esforços indispensáveis para produzir tudo o que era indispensável para dar satisfação àquelas necessidades. (ainda hoje há zonas da organização produtiva onde tal acontece).

Pouco a pouco, as pessoas começaram a dar-se conta de que nem todos tinham idênticas capacidades para produzir cada um dos bens. Pensaram então, que talvez pudesse ser uma boa ideia que cada um pudesse produzir, em maiores quantidades, os bens para que se encontrava mais dotado e menos bens daqueles para que tinha menor apetência. Se assim fizessem, e porque eram mais eficientes na produção dos bens para que se encontravam mais dotados, poderiam trocar, com vantagem, os bens que produziam em excesso, por aqueles que não produziam, ou produziam em quantidades insuficientes para as suas necessidades.

Esta troca processava-se de forma directa, por ex. um sujeito chegava junto de outro e dizia-lhe: “estás de acordo em dar-me duas meadas de linho, que eu dou-te quatro alqueires de milho?”. Após a pergunta inicial negociavam entre si até chegarem a um acordo. Apesar dos inconvenientes, este procedimento foi o adoptado durante séculos, até que alguém pensou que em vez de levar para o mercado o milho poderia, talvez, levar uns pedacinhos de metal valioso (cobre, prata ou ouro), que era muito mais fácil de transportar e, certamente, seria aceite pela outra parte.

E se assim pensou, melhor o fez, dando origem ao aparecimento da moeda. Foi uma grande descoberta, porque as trocas puderam desenvolver-se muito mais rapidamente e com maior satisfação para todos. A moeda não tinha um valor em si (salvo o de reserva, de adorno, etc.). Isto é, ninguém procurava negociar a moeda; ela aparecia como um equivalente geral de bens, ou de valores (dos bens); a moeda era neutra em relação às trocas que se processavam. A moeda tinha, apenas, um papel de intermediação. O dinheiro era importante, mas existia, apenas, em função das necessidades da economia real (a dos bens e dos serviços).

Mas, como em todas as histórias, também aqui surgiram oportunistas. Começaram a aparecer uns sujeitos escondidos atrás das árvores a propor negócios em que ninguém, antes, tinha pensado. Diziam, a quem passava, que se não tivesse as moedas suficientes para comprar o que queria, ou necessitava, não fazia mal, porque eles lhas poderiam emprestar, desde que se comprometessem a devolver-lhes outras de igual valor, embora com um pequeno acréscimo de moedas (juros devedores). Do mesmo modo, se aparecia alguém que tinha moedas a mais, também, tinham uma proposta para lhe fazer: “deixas-me as moedas que te sobram que daqui a um certo tempo (o que fosse combinado) eu devolvo-te moedas de igual valor, com mais umas tantas com compensação (juros credores).

E assim a moeda se transformou em mercadoria. Começou a haver gente que passou a viver do comércio do dinheiro, pois que pela mesma quantidade de moedas, pagavam menos quando recebiam do que quando emprestavam. O dinheiro passou a ser uma mercadoria. Começou a ter uma funcionalidade própria e já não era, apenas o dinheiro para a economia real, embora continuasse nela ancorado.

Os tempos passaram e o negócio sofisticou-se. Começou a emprestar-se dinheiro, não apenas como facilitador de trocas de bens e serviços mas, também, para que se pudessem realizar aplicações financeiras. Isto é, com o dinheiro passou a comprar-se, igualmente, dinheiro ou títulos de dívida. Tal passou a ser válido, não apenas para os indivíduos mas, também para as grandes instituições e Estados.

E assim se caminhou do “dinheiro ao serviço da economia” para a “economia ao serviço do dinheiro”.

Fica, contudo, uma pergunta: porque é que alguém há-de preferir emprestar para aplicações financeiras em vez de o fazer em investimento produtivo? A explicação é simples.

Quem tem dinheiro para emprestar dirige-o para as aplicações em que pensa poder obter uma maior rentabilidade. Em certas ocasiões tal acontece na economia real, mas em outras diminui a rentabilidade nesta e aumenta na economia financeira.

Quando? A economia real é tanto mais rentável quanto maior for o conteúdo de inovações incorporadas e enquanto essas inovações não se transformaram em inovações de massa. Quando tal acontece, como é o caso actualmente, a liquidez existente desloca-se para a economia financeira, onde a possibilidade de distorcer o comportamento dos mercados se torna muito mais fácil. Hoje, o facto de o mercado da oferta de dinheiro ser um mercado global, dá-lhe capacidade suficiente para condicionar os mercados da procura que são mercados locais, regionais ou nacionais.

Não surpreende, assim, que os ataques financeiros, pelo lado da oferta, se concentrem sobre os que do lado da procura se encontrem em situação mais frágil ou em condições de poder ser mais facilmente fragilizada (foi o que aconteceu com a Grécia, a Irlanda e Portugal e há-de acontecer com outros, quando já não for possível sugar mais os primeiros).

Mas então isto não tem saída? Claro que tem, o que é preciso é saber encontrá-la e desejar atravessá-la. Vários caminhos são possíveis:

- Diminuir a liquidez existente no mercado mundial, através de políticas de natureza fiscal, o que exigiria a compatibilização de comportamentos por parte dos Estados;

- Regular o comportamento dos mercados financeiros, como há muito vem sendo exigido, mas que se tem tornado inviável dado que quem deveria promover a regulação, também, lucra com o comportamento que os mercados têm vindo a adoptar;

- Financiar o investimento na economia real, transferindo para ela os meios financeiros obtidos por via fiscal;

- Investir fortemente em inovação, o que não pode ter resultados significativos se não forem os Estados a mobilizar-se para tal.

Estes caminhos não têm que ser tomados como paralelos; antes, os seus efeitos podem ser reforçados se tenderem a sobrepor-se.