30 abril 2011

Economia com Futuro

O "Areia dos dias" tem procurado fazer-se eco de reflexões e iniciativas que possam contribuir para um pensamento inovador quanto ao modelo de economia e de sociedade que desejamos para o nosso País.
Este fim de semana veio a público a notícia da constituição de uma rede de professores universitários e investigadores de economia e de outras ciências sociais que se propôem levar a efeito, entre outras acções, a realização de uma Conferência com o tema Economia portuguesa - uma economia com futuro.
Nestes dias em que muito se fala de fracassos, de dificuldades, de impasses e de crise, é particularmente urgente olhar para horizontes mais largos e esperançosos e indagar como conduzir a economia para os seus verdadeiros fins. A academia não pode eximir-se a essa tarefa. Mas ela é também - e sobretudo - dos cidadãos e das cidadãs e por isso vale a pena dar a conhecer na íntegra o documento constituinte da referida rede, pois ele é, em si mesmo, um texto que dá que pensar.

Economia com futuro - um compromisso e um apelo

Em tomada de posição pública intitulada “Para uma nova economia”, divulgada após a aprovação do Orçamento de 2011, um numeroso grupo de professores universitários de economia e de outras ciências sociais (a que se vieram a associar muitos outros cidadãos e cidadãs) preveniu que a austeridade inscrita no Orçamento não iria conter a pressão especulativa contra Portugal e tolheria o passo às mudanças estruturais de que o País carece para alcançar um desenvolvimento sustentável.

Nesse mesmo texto escrutinavam-se as raízes culturais, ideológicas e institucionais da crise: o menosprezo pela ética, a exaltação do “mercado”, a insensibilidade face às desigualdades e à pobreza, a desvirtuação e subestimação do papel económico do Estado, a desregulamentação da finança, o predomínio dos interesses financeiros sobre o conjunto da vida económica e da sociedade, a extensão injustificada das relações mercantis a domínios cada vez mais alargados da vida social, incluindo áreas tão sensíveis como a prestação de cuidados de saúde, a educação e a protecção na infância e na velhice.

Denunciava-se também uma visão estreita da economia, assente em pressupostos sobre a eficiência dos mercados e o comportamento racional dos indivíduos, que se revela incapaz de explicar a realidade da vida económica e do mundo actual e desastrosa nos seus efeitos quando incorporada nas políticas e aplicada. Afirmava-se, assim, a existência de conhecimentos económicos que permitem fundamentar a denúncia dos falsos pressupostos das opções de política que originaram e estão a aprofundar a crise, e que podem, ao mesmo tempo, dar um contributo para a invenção de soluções com futuro.

As propostas então avançadas partiam de uma definição dos fins que vale a pena prosseguir: eliminação de carências básicas e correcção das desigualdades, valorização do trabalho humano e promoção do emprego, provisão económica num quadro de sustentabilidade ambiental, eficiência económica compatível com justiça social e coesão territorial, coexistência de modos de provisão e de uso mercantis e não mercantis.

Essas propostas apontavam também para a necessidade urgente de reformas aos níveis global e europeu de governação:

- Intervenção adequada e coordenada a nível mundial, tendente à eliminação dos paraísos fiscais, à regulação das agências de rating, à tributação das transacções financeiras, à refundação das instâncias reguladoras, à reforma dos sistemas bancários, ao combate às acções especulativas e ao reforço da responsabilidade e da conduta ética nos negócios.

- Reforma da arquitectura do euro, das instituições e das políticas europeias, envolvendo o combate às assimetrias comerciais no interior da Eurozona, a reorientação das prioridades do Banco Central Europeu com ênfase num papel activo no financiamento dos Estados e em políticas monetárias amigas do emprego, a coordenação eficaz das políticas económicas com flexibilização das políticas monetária e orçamental, o reforço da base fiscal dos Estados com coordenação dos diversos sistemas tributários que salvaguarde os modelos sociais europeus, o relançamento de uma estratégia de desenvolvimento digna desse nome à escala da UE, o reforço da regulamentação das instituições financeiras, o combate às desigualdades e à pobreza, a auditoria das dívidas privada e pública.

Desde o momento da divulgação desta tomada de posição até hoje nenhum passo substancial foi dado nestas direcções. Pelo contrário, as reformas anunciadas ao nível da União Europeia apontam no sentido da consolidação da ortodoxia monetária e orçamental, da subordinação dos estados aos mercados financeiros, da insensibilidade às assimetrias sociais e territoriais no interior do espaço europeu e do aprofundamento do défice democrático da União. Isto é, continua a caminhar-se, exactamente, no sentido contrário ao desejável.

Entretanto, a crise das periferias aprofundou-se e Portugal viu-se envolvido na voragem dos resgates. O novo programa de austeridade e de “ajustamento estrutural” associado aos empréstimos do FEEF/FMI, orientado para a salvaguarda dos interesses do sector financeiro à custa dos rendimentos salariais e da prestação de serviços públicos de acesso universal, traduzir-se-á, a exemplo do que está a acontecer na Grécia e na Irlanda, em aumento do desemprego e da pobreza e em agravamento das desigualdades sociais e territoriais. Originando mais recessão, e não o crescimento que promete, poderá falhar na necessária consolidação orçamental e não reduzirá a dívida nem o fardo dos seus juros. Portugal sairá do novo programa mais debilitado e em piores condições para fazer face aos problemas colocados pelo aumento da dívida.

Agora, mais do que nunca, é necessário mobilizar o conhecimento económico e de outras ciências sociais para a invenção e proposta de soluções com futuro. Há perguntas que pedem uma resposta urgente.

Sabemos que não há lugar para uma conciliação entre medidas de austeridade violentas (exclusivamente orientadas para a consolidação orçamental e a redução da dívida externa no imediato) e crescimento capaz de equilibrar o orçamento e reduzir a dívida a prazo. Ao nível da UE há soluções possíveis (eurobonds, intervenção do BCE no mercado primário da dívida), mas parece não existirem condições políticas para as fazer vingar. Por isso mesmo, a reestruturação da dívida tem sido sugerida por quadrantes de opinião muito diversos como uma solução a encarar. Será uma reestruturação agora preferível a uma reestruturação tornada inevitável no futuro por uma recessão profunda e prolongada? Quais as implicações, benefícios e custos de uma tal reestruturação? Como deve ser concebida e negociada?

A manterem-se a actual arquitectura da zona euro e as respectivas orientações estratégicas, e mesmo que os problemas do défice e da dívida se resolvam de uma forma ou de outra, Portugal continuaria a ter de viver com uma moeda que é forte, como os sectores exportadores de tecnologia complexa desejam, mas que é demasiado forte para uma economia como a portuguesa. Essa é uma das causas do défice externo que Portugal viu crescer na década do euro. Mesmo com todo o investimento em ciência verificado nos últimos anos, Portugal não deu o salto tecnológico, económico e social necessário para competir no quadro da zona euro. Que espaço existe para Portugal na zona euro tal como ela existe? O que seria uma Eurozona com lugar para Portugal e outras economias periféricas? O que fazer se não for possível reformá-la?

A premência dos problemas do momento não pode fazer perder de vista os disfuncionamentos estruturais do actual modelo de desenvolvimento global e os dilemas a ele associados. A prioridade ao emprego e ao desendividamento a prazo aponta para a necessidade de crescimento. Este desiderato tem conflituado, não raro, com imperativos de sustentabilidade ambiental e coesão social. O “sucesso” das economias emergentes acentua os riscos de exaustão dos recursos e a pressão sobre o ambiente. Por outro lado, apesar da redução da pobreza para milhões de seres humanos verificada nos últimos anos naquelas economias, a distância entre os mais ricos e os mais pobres à escala mundial e no interior da maior parte dos países não cessa de aumentar. Como resolver o problema do emprego, do desendividamento e do desenvolvimento num quadro de reconhecimento das restrições ambientais e da necessidade de salvaguarda da coesão social?

Pelas perguntas que há em aberto e pela necessidade premente de encontrar soluções com futuro, os subscritores deste documento tomaram a iniciativa de promover a conferência “Economia Portuguesa: uma Economia com Futuro”, que terá lugar a 30 de Setembro de 2011 na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.

A conferência pretende ser um momento de debate público de ideias que entretanto germinem nesta rede de reflexão.

O conhecimento económico que se encontra disperso na sociedade, que não é monopólio de académicos e muito menos que têm tido oportunidade de se pronunciar, deve ser neste momento mobilizado de forma operativa. Precisamos de uma economia com futuro.


28 de Abril de 2011

29 abril 2011

CO-RESPONSÁVEIS E FIRMES NO DESAFIO DA MUDANÇA URGENTE

Com este título, acaba de ser publicada uma tomada de posição por parte da Comissão Nacional Justiça e Paz face à presente crise e ao actual momento político marcado  este por dois factos assinaláveis: a presença do FMI e instituições europeias em negociações com as autoridades portuguesas para prepararem um plano estratégico que evite a bancarrota em que o País pode cair e a proximidade de eleições para deputados à Assembleia da República já marcadas.

O documento reconhece a gravidade da situação em que o País se encontra mas arreda a tentação de, neste momento, atribuir responsabilidades, ainda que declare que aquelas existem e devem ser reconhecidas e oportunamente apuradas.

A urgência e a gravidade da situação implicam que se mobilizem todas as energias no sentido de procurar caminhos de solução que, para além de assegurarem os indispensáveis equilíbrios financeiros, salvaguardem possibilidades de crescimento económico com criação de emprego, melhores salários para as populações mais carenciadas e sustentabilidade do estado social.

Para a CNJP, no seguimento da doutrina social da Igreja e de toda a tradição bíblica e evangélica, são três os alicerces sobre os quais devemos construir o futuro da nossa economia e da nossa sociedade: a justiça, a solidariedade e o bem comum.

Em tempo de crise, tais critérios não devem ser colocados entre parêntesis, mas antes reforçados.

Por exemplo, a esta luz, afirma-se, expressamente: A Comissão Nacional Justiça e Paz considera inaceitável o corte ou congelamento dos baixos salários, pensões ou outras prestações sociais. Os recursos necessários deverão advir dos estratos de rendimentos (do trabalho e do capital) mais altos.

26 abril 2011

Como vai a nossa saúde?

Quase diariamente a comunicação social, particularmente os jornais, vem referindo a questão da sustentabilidade financeira do Serviço Nacional de Saúde e as restrições que aí já se fazem sentir, com consequências a nível do acesso aos cuidados de saúde, quando não à qualidade com que estes são prestados.

Tudo isto nos é apresentado como uma inevitabilidade, abrindo caminho para que alguns defendam uma redução do papel do Estado, argumentando com os benefícios que adviriam, no seu entender, de uma concorrência entre os serviços públicos e os privados.

Ignora quem tal defende aquilo que desde há quase meio século - a começar por Kenneth J. Arrow- os economistas conhecem bem: não pode existir um mercado concorrencial na prestação de cuidados de saúde, precisamente pelas características particulares de que aqueles cuidados se revestem.

Ignoram (ou omitem) o que são os maus resultados de opções privatizadoras na saúde, quer em termos de maiores custos da prestação de cuidados de saúde, quer no tocante à perda de coesão social.

Sem dúvida que o sistema de saúde português é complexo, com numerosos sub-sistemas, algumas ineficiências, e uma articulação muito deficiente com as entidades privadas que nele intervêm.

Muito haverá a fazer para melhorar o sistema e para tal existem já diagnósticos aprofundados que podem e devem ser levados em linha de conta.

O que não pode ser minimizado é o facto de que, em Portugal, as despesas de saúde suportadas pelas famílias são das mais elevadas no conjunto da União europeia, o que, de acordo com as conclusões de estudos internacionais, se revela factor de regressividade no financiamento dos cuidados de saúde, ou seja, a despesa com a saúde é relativamente mais pesada nas famílias de baixos rendimentos. Em particular, a despesa com medicamentos é já, para muitos portugueses, praticamente insustentável.

A hipotética opção por um drástico racionamento ou maiores co-pagamentos, qualquer que fosse a sua forma, não parece ser capaz de resolver o problema de financiamento, favorece o adiamento das medidas que se impõem para aumentar a eficiência do sistema de saúde e, acima de tudo, seria reveladora de uma chocante insensibilidade social. Ver mais.

25 abril 2011

Em defesa do sistema nacional de saúde

Tem vindo o Grupo Economia e Sociedade (GES), da Comissão Nacional Justiça e Paz a preparar e a levar a público a sua reflexão sobre a crise e a necessidade de procurar novos rumos para a economia. É disso exemplo o Manifesto para uma Nova Economia apresentado a subscrição pública no final ano passado e que recolheu uma ampla adesão.

Entre outras dimensões da presente crise, a exigir reflexão, preocupam-nos as ameaças que vêm sendo dirigidas aos modelos europeus de protecção social adoptados pelos diferentes Estados membros da União Europeia e defendidos pelos Tratados e instâncias comunitárias. Aqueles modelos, sendo diversos, tinham em comum a missão de tornar o bem-estar das pessoas tão independente quanto possível da aleatoriedade e das forças de mercado.

Reconhece-se que as novas realidades socioeconómicas emergentes impõem ajustamentos à forma como se pode atingir aquele objectivo, mas é imperioso que tal não conduza ao desmantelamento do Estado Social, mormente quando o futuro que se pode antever exigiria, antes, o seu reforço: as despesas sociais, agora olhadas quase exclusivamente como um custo, são fundamentais na promoção da estabilidade politica e social, ao mesmo tempo que são também factor de crescimento da economia e como tal hão de continuar a ser consideradas como um investimento.

Também entre nós o sistema nacional de saúde tem vindo a evoluir no sentido de um crescente envolvimento da prestação privada de cuidados de saúde, sem que se tenham adoptado medidas que garantam a sua adequada articulação com o Serviço Nacional de Saúde. A ausência de uma delimitação rigorosa de fronteiras entre o público e o privado ameaça o sistema no seu conjunto.

Por outro lado, a necessidade de contenção orçamental no muito curto prazo, que nos é imposta, pode determinar medidas que se arriscam a pôr em causa o ganho civilizacional que foi alcançado em 1979 com a criação do SNS que muitos consideram exemplar em termos de concepção e com resultados muito positivos no nível de saúde dos portugueses.

Porque se trata de questão da maior relevância, a sociedade civil não pode, nem deve, ficar à margem deste processo que lhe diz respeito em primeiro lugar: está em causa o seu bem-estar assim como o futuro dos seus filhos e o dos seus velhos, a quem todos devemos solidariedade.

O texto acima é retirado de um documento interno elaborado pelo GES no qual se procura fazer uma análise rigorosa dos pontos fortes e elos mais fracos do actual sistema nacional de saúde. No entender do GES, é urgente mobilizar um debate público sobre esta questão, o mais abrangente possível, por forma a defender, adequadamente, um sistema nacional de saúde sustentável.

A preocupação com o equilíbrio forçado das contas públicas que nos venha a ser imposto com excessiva severidade pelos nossos credores, aliada aos interesses do capital privado em investimentos no sector da saúde, podem encaminhar os decisores políticos para o enfraquecimento ou, no limite, o desmantelamento do serviço nacional de saúde. E se assim vier a suceder todos ficaremos mais pobres. É esta uma razão de sobra para gerar um forte empenhamento da sociedade civil na causa da defesa de um sistema nacional de saúde sustentável.

15 abril 2011

E agora José ? (II)

Antes de continuar leia este .

E quanto a nós o que se segue? Dizem-nos que chegaram os negociadores. Vai-se a ver e, afinal, só chegaram uns Srs. que vêm fazer o levantamento da situação, i.e., o diagnóstico. Os negociadores vêm a seguir, mas mesmo em relação a esses é legítima a interrogação sobre se vêm negociar alguma coisa. Duvido muito, mas é questão a que voltarei mais abaixo.

Independentemente da interpretação do diagnóstico que cada um possa fazer sobre a situação da economia portuguesa (e certamente, que dela muitos desenhos poderiam ser feitos) ninguém poderá argumentar que não existiam outros cenários a merecer discussão e ponderação. Não deixo de reconhecer, no entanto, que esses cenários sendo sempre gravosos para os portugueses podem sê-lo mais para uns do que para outros. Não o poderei fazer, aqui, agora, mas poderão, pelo menos, ser enunciados.

1. Modificação das regras de funcionamento do euro.

O Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC, que não os PEC de que tanto se tem falado entre nós e que são apenas as propostas de cada pais para que o PEC seja respeitado) O PEC tem normativos que garantem o crescimento dos países de economia mais robusta, mas não o das economias mais frágeis, como a de Portugal, Espanha, Grécia, etc. A questão é a de saber se nos queremos pôr em bicos de pés para estar no euro e para isso até estamos disponíveis para adoptar medidas que nos prejudicam, ou se o interesse de estarmos no euro é, também, dos países do “centro” e, portanto, se eles têm interesse nisso, então terão que estar disponíveis para que, em relação aos ditos países da periferia, possam ser adoptadas regras adaptadas às suas circunstâncias. Já alguém pensou no que seria se, quando existia o escudo como moeda portuguesa, o Governo abdicasse do Baixo Alentejo com o argumento de que aí a produtividade dos factores é menor do que no resto do país?

2. Saída do Euro (União Monetária)

Do meu ponto de vista, esta alternativa só se deveria colocar se a alternativa acima não fosse aceitável pelos nossos “parceiros”. Certamente que isso teria consequências. Se saímos de uma moeda forte para adoptar uma que será, necessariamente, mais fraca, isso significa desvalorização dos nossos recursos e inflação. Mas já alguém fez as contas do que é que se perde com a manutenção da situação actual? O resgate que, agora, está em curso não nos vai trazer nenhuma desvalorização de recursos?

3. A reestruturação da dívida

O que é que isto significa? Significa que em determinado momento um país declara aos seus credores que não está disponível para fazer o reembolso da dívida e dos seus encargos, nas mesmas condições que anteriormente (vide caso da Islândia). A consequência é que se iniciariam negociações para determinar as novas condições de reembolso. Dir-se-á que quem pretende tomar este comportamento não é sério, porque não sabe honrar os seus compromissos e, além do mais, não está a ter em conta a reacção que os mercados financeiros vão ter face a necessidade que o país vai continuar a ter, de financiamento externo.

Este é um ponto de vista. E porque é que não se pode argumentar que pouco sério foi quem nos andou a aguilhoar durante todo o processo de constituição da dívida?

Quanto à reacção dos mercados financeiros ela é, apenas uma ameaça: eles têm receio é de que o mesmo comportamento possa vir a ser adoptado por outros países. Para além disso, a abundância de liquidez não vai desaparecer de um momento para o outro, e os investidores não deixarão de preferir emprestar em condições diferentes das anteriores (taxas mais baixas, por ex.) do que verem reduzido o seu mercado de aplicações.

4. O resgate

Uma consideração final relativa ao resgate. Ninguém tenha dúvidas de que o resultado final das negociações se vai traduzir por: desvalorização dos recursos nacionais, flexibilização do mercado do trabalho, despedimentos, baixa de salários e pensões, diminuição da capacidade de investimento, diminuição dos preços das exportações, diminuição da nossa capacidade produtiva, etc. Apenas, vai prevalecer a preocupação de que o país assegurará, sem a mínima hesitação, os seus compromissos com a dívida, a anterior e a do “grande empréstimo”.

Face a isto a que é fica reduzida a negociação? À apresentação, pela parte portuguesa, das alternativas que do seu ponto de vista podem garantir, com segurança, o reembolso. Do outro lado, apenas, haverá que escolher qual a opção que consideram mais adequada, ou exigir outra.

Neste quadro, é patético ver como alguns agentes políticos se agitam a propósito de uma pretensa intervenção na forma como devem ser assumidos os compromissos. Se alguma margem de opção poderá existir, ela só acontecerá no pós-eleições, por ex., quando se tiver de aumentar a taxa do IVA e se tiver que escolher em diferenciar taxas sobre produtos de primeira necessidade e outros produtos. Aí se verá quem é que cada uma das forças políticas considera que deve pagar a crise.

E agora José ? (I)


E agora? Agora eles já cá estão, diz o Sr. José!

É que o Zezinho, entretanto, cresceu e já não precisa de histórias para adormecer. Para adormecer, precisava era de andar mais tranquilo com tudo o que se está a passar neste país. Agora, o Zezinho é o Sr. José (Zé Povinho). Por isso, deixemo-nos de histórias e vamos ao que interessa.

Temos presente a recente cavalgada da taxa de juros, sempre que o Estado colocava dívida no mercado financeiro. Estranha cavalgada? Nem tanto. O ritmo da subida era atribuído ao comportamento das agências de rating, o que é verdade. Neste comportamento há elementos que nos podem surpreender e outros que nem por isso. Surpreende-nos a violação das regras de funcionamento dos mercados:

1. Concentração (lembram-se do que a União Europeia fez à Microsoft; porque não fez nada em relação às agências?);

2. Conflitos de interesses entre o comportamento das agências e dos seus accionistas (os accionistas investem em dívida cujo preço as agências aumentam);

3. Falta de transparência nas decisões (ninguém conhece quais são os critérios de que se servem para mudarem as notações);

4. Ausência de proporcionalidade entre as notações e as razões genéricas que invocam (a maior dificuldade dos países em poderem reembolsar a dívida; sabemos como aumentaram os juros no período de pouco mais de um mês, sem que nada de substancial quanto ao nível da dívida e quanto à robustez da economia se tivesse alterado).

A denúncia destes comportamentos está a ser feita aqui. Todos os que com ela estiverem de acordo podem subscrevê-la.

Perante estas violações, no espaço europeu, o que fez a União Europeia e os Estados que poderiam fazer alguma coisa? Nada! E porquê? Só há uma explicação: tinham interesse em que as coisas se passassem assim, porque eles próprios, as suas instituições ou os seus nacionais também são investidores na dívida.

Para além destas violações não me surpreende o comportamento das agências porque, na ausência de regulação, quando os Estados que recorrem à colocação de dívida se encontram em situação semelhante à da mosca na teia, elas mais não fazem do que prestar um bom serviço aos seus clientes.

Talvez o que surpreende é a razão pela qual as agências, de um momento para o outro, começaram a recomendar (ou a exigir) que Portugal fizesse o resgate da dívida (empréstimo que garante o pagamento da dívida). É que havendo resgate deixa de haver colocação de dívida no mercado (pelo menos ao mesmo ritmo que anteriormente) e, em consequência, deixa de haver possibilidade de continuar a ganhar com as manobras das notações.

A explicação é muito simples: as agências levaram até à exaustão a capacidade de pagamento do país e, quando começaram a perceber que poderia estar em dúvida o reembolso, trataram de se precaver. Conclusão: a chamada ajuda externa que por aí se está a negociar é ajuda para eles e seus clientes, mas quem paga somos nós.

E as agências vão agora ficar desempregadas? Elas, não, muitos dos portugueses, talvez. E porque não, as agências de rating? Também aqui se pode destapar a iguaria. A razão é a de que os investidores internacionais consideram que os investimentos na economia real são pouco rentáveis e desviam os capitais disponíveis para aplicações do mercado financeiro, mais rentáveis e mais facilmente manobráveis, como vimos acima.

Daqui resulta um extraordinário volume de liquidez no mercado que, pela sua natureza, é avesso à ausência de aplicações. O que vão fazer? Vão procurar identificar um país (Espanha, Bélgica, ou outro?) onde identifiquem maiores debilidades financeiras e, depois, mais nada há que fazer do que aplicar a estratégia da aranha.

12 abril 2011

Uma Acção de Cidadania - Denúncia acerca de três Agências de Rating

Foi ontem entregue na Procuradoria Geral da República uma denúncia do comportamento das três maiores agências de rating em relação às suas notações relativamente ao Estado português e aos bancos sediados em território nacional.

Causou surpresa o facto de, em poucos dias, as referidas agências terem baixado as suas notações sem que se conheçam os fundamentos com que o fizeram. O Presidente da República chegou a dizer que tais notações revelavam um enorme exagero na avaliação do risco de crédito.

Nem a crise política, normal em democracia, nem a evolução da capacidade produtiva do País, que não se altera em 24 ou 48 horas, justificam os cortes drásticos recentemente verificados. Há, pois, que procurar outras causas e ver o que está por detrás destes comportamentos.

Três razões objectivas justificam dúvidas: o elevado grau de concentração das três maiores agências de rating, todas americanas e que, no conjunto, detêm mais de 90% do seu respectivo mercado; a possível conflitualidade de interesses, devida à presença de empresas de gestão de fundos na estrutura do capital accionista em duas dessas empresas de rating (num caso, em posição de accionista maioritário) e a falta de transparência por ocultação de critérios em que se baseiam as notações.

Podemos perguntar: a quem aproveita a severidade nos ratings da dívida da República e dos bancos portugueses? A resposta é simples: em primeiro lugar, serve os interesses dos especuladores que vêem as suas possibilidades de lucro aumentadas pelo simples facto da subida dos juros; serve também a uma estratégia de enfraquecimento do euro face ao dólar ou mesmo ao propósito de ressuscitar a moeda americana como único meio de pagamento internacional, conveniente, entre outras razões, para fazer face à elevada dívida pública americana contraída no exterior.

O mais grave é que estes ratings têm efeitos devastadores sobre o acesso ao crédito por parte das pessoas, do Estado e das empresas do nosso País e constituem também uma rampa de lançamento para justificar políticas de austeridade que impedem um desenvolvimento humano sustentável.

Para saber mais consulte http://www.peticaopublica.com/?pi=denuncia. Se concordar pode dar o seu apoio, subscrevendo esta acção.