05 abril 2011
"Valorizar o Trabalho", Desvalorizando-o?
04 abril 2011
QUE PARVOS NÓS SOMOS!
01 abril 2011
A estratégia da aranha, os mercados financeiros, as agências de rating e o mais que se verá
Já viram o que é que faz a aranha quando as moscas andam por perto e se deixam apanhar pela teia? Salta-lhes em cima e suga-as até que reste, apenas, o revestimento exterior. Mesmo que não gostemos das moscas, este espectáculo é, mesmo assim, cruel. No entanto, vale a pena observar este comportamento da natureza, porque observá-la nos permite aprender muito sobre os comportamentos humanos e suas instituições.
O que faz a aranha? Começa por construir a teia e depois de ela estar terminada, recolhe-se a um esconderijo e aí espera que as moscas distraídas aterrem na teia, onde permanecerão presas sem qualquer possibilidade de se libertarem, pois quanto mais se mexem, mas presas ficam. É nesse momento que a aranha sai, a grande velocidade, do esconderijo, se precipita com o seu aguilhão sobre a mosca e lhe suga tudo o que possa existir dentro da sua carapaça.
Há, contudo, uma situação em que a mosca consegue evitar a prisão da teia. Consiste, apenas, em não se deixar prender por ela e isso é possível. Nas madrugadas húmidas, os nós da teia ganham gotículas que, com os raios de sol, ao nascer da aurora, tornam a teia mais visível e, por isso, menos capaz de captar moscas.
A estratégia da aranha só é aqui invocada para que compreendamos, melhor, a estratégia dos designados “mercados” financeiros, face à mosca que somos nós, Portugal. A postura dos mercados financeiros, hoje, perante Portugal é muito semelhante à da aranha: estão dispostos a sugar-nos até ao tutano e, como nos já deixamos enredar pela sua teia é, agora, difícil dela nos libertarmos. Vejamos alguns detalhes do seu comportamento.
Comecemos por observar como funcionam os mercados. Todos conhecemos o que acontece nos mercados de rua, com compradores, de um lado e vendedores, do outro. São muitos compradores e muitos vendedores. Embora uns queiram comprar e outros vender, ninguém é obrigado a fazê-lo. “Marralhando” de um lado e do outro, chega-se, em geral, à fixação de um preço que todos consideram razoável. Se não chegarem a acordo, cada um vai à sua vida. Isto acontece, porque compradores e vendedores são muitos (nos mercados perfeitos, uns e outros seriam em número infinito).
É verdade que nos mercados perfeitos se exige o preenchimento de outras condições, como por ex. a transparência da informação, a idêntica dimensão dos agentes, a homogeneidade dos produtos transaccionados e o livre acesso aos mercados. No entanto, basta que não se verifique um destes pressupostos para que as características dos mercados sejam outras (concorrência imperfeita) e que sejam, também, outras as regras de comportamento a que devem obedecer. Se os mercados forem de concorrência imperfeita, como o são sempre (porque os perfeitos são uma mistificação que só serve como esquema de raciocínio), querer aplicar-lhes as regras dos mercados de concorrência perfeita é um completo embuste. Apesar disso, é corrente a ideia de que os mercados, mesmo que não sejam os perfeitos, se adoptarem as suas regras, produzem, sempre boas decisões o que, teoricamente, é totalmente falso.
Para que servem, aqui, estas divagações? Para mostrar que os “mercados financeiros” podem ser mercados, mas são mercados em que uns são aranhas e outros, moscas. Nestes “mercados” estão presentes, também, uns outros personagens designados por “agências de rating”. Surgem perante a opinião pública menos prevenida, como uma espécie de agentes clarificadores da situação dos mercados (reguladores). Os pontos de vista que explicitam aparecem como inquestionáveis. No entanto, só são inquestionáveis para quem se deixou cair na teia da aranha, que elas ajudaram a construir.
Temos ouvido falar muito da Standard & Poors, da Fitch e da Moody’s. De onde vêm tais instituições? Foram criadas para prestar serviços de análise e aconselhamento sobre a sustentabilidade dos projectos em que os investidores poderão vir a realizar aplicações financeiras. A Standard & Poors, por ex., surgiu em meados do Séc. XIX, para ajuizar da razoabilidade de aplicações financeiras na construção de caminhos-de-ferro nos EUA. Não são, por isso, nos mercados, organizações independentes.
Foi assim no passado e é sensivelmente a mesma coisa hoje, com um pormenor que importa referir: baixou a rentabilidade dos investimentos na economia real (fim de ciclo do fluxo de inovações) e os “mercados” passaram a privilegiar as aplicações financeiras. Como há muito maior desigualdade entre quem precisa de financiamento e quem o oferece, a aranha faz o que tem de fazer: suga a mosca.
Para isso, recorre a todos os estratagemas. Já repararam que trabalhando as agências para quem tem o dinheiro (especuladores, particulares, Fundos, governos ou suas instituições), os serviços por elas prestados serão tanto mais apreciados, quanto maior for a remuneração dos capitais que os seus pareceres provocarem. É muito difícil consegui-lo? Nada mais fácil: basta baixar o rating, e quanto maior for a baixa, maior será o retorno. Não podemos, por isso, surpreender-nos com o sucessivo anúncio de baixas de rating da República e, também agora, das suas empresas e, imagine-se, dos seus territórios (o concelho de Cascais viu baixar o seu rating”).
Ainda poderá haver quem se interrogue porque é que estas agências anunciam que se o país não recorre aos Fundos (FMI e Fundo Europeu de Estabilização), o rating cairá ainda mais, como que empurrando o país para esses Fundos. Poderia parecer que tal não serve os interesses dos detentores de meios de financiamento. É falso, porque estando à vista o recurso aos Fundos, mas demorando ainda algum tempo a concretizar-se, enquanto tal não acontecer, a nova baixa do rating permite que a remuneração do capital continue a aumentar.
Não é fácil sairmos da teia em que nos deixamos cair. Na situação a que chegamos, não restam muitas alternativas: ou se recorre aos Fundos; ou se estabelecem alianças entre s países mais afectados com vista a modificar os critérios do PEC; ou se faz a reestruturação e o resgate da dívida; ou se sai do Euro. Imediatamente, qualquer das opções será muito dolorosa, mas nem todas têm as mesmas virtualidades futuras.
Porventura, o único caminho viável será o de, como a mosca, apenas voar quando surgir a “nova aurora” e virmos melhor onde está a teia dos mercados financeiros, para a sabermos evitar. Como na estratégia da aranha, ela pouco faria se as moscas soubessem evitar cair na teia!
E, o que mais se verá? Provavelmente que a aranha vai ver se apanha outro na teia, talvez a Espanha.
Atenção que, apesar de hoje ser o dia 1 de Abril, nada disto é mentira!
31 março 2011
A Honrosa Causa de Lula
29 março 2011
De uma crise para a próxima?
28 março 2011
Para que nos Serve a Crise?
26 março 2011
A história do agricultor que comia as sementes (II)
E agora? (antes de continuar, veja o episódio anterior aqui)
Agora a coisa está complicada, porque já não temos sementes para investir e o que continuamos a pedir emprestado mal chega para pagar: os empréstimos anteriores, os respectivos juros e para cobrir um pouco das despesas correntes. Não apenas deixamos de ter para semear, como há riscos de deixarmos de ter para comer.
Não é fácil sair deste circo. Qualquer que venha a ser o buraco encontrado para a saída ele não deixará de nos confrontar com a necessidade de: sermos mais austeros no nosso estilo de vida; colocar numa dieta de emagrecimento um grande número de nós e, sobretudo, os que antes, deixaram crescer a barriga; tentar criar algum excedente (poupança) que nos permita investir para crescermos e nos desenvolvermos.
De outro modo, comendo todas as sementes nunca convenceremos os credores de que algum dia teremos capacidade para os reembolsar e, por isso, só continuarão a emprestar-nos a taxas de juro que nos levam a carne e o osso.
Explicação simplista? Um pouco! Só que mais vale com uma explicação simplista tentar compreender alguma coisa, do que não compreender nada com explicações sofisticadíssimas que só servem para alienar o “patego”, distrai-lo, e pô-lo a “olhar para o balão”, enquanto os ladrões, à solta, vão fazendo a limpeza dos nossos bolsos.
E então o que fica de fora da explicação? São múltiplas as dimensões desta questão e, por isso, tantas outras ponderações devem ser feitas quando procuramos uma solução. No entanto, o que acima fica dito não é minimamente beliscado por essas ponderações. Teremos que ter em conta que:
1. O que pedimos emprestado não serve apenas para pagar dívidas mas, também, para pagar funcionários, consumíveis de serviços públicos (tribunais, educação, saúde);
2. Os mercados que nos emprestam dinheiro só deixarão de nos roer quando se convencerem que não precisamos deles (e, certamente que irão, depois, afiar o dente noutros países, talvez em Espanha);
3. Quem investe nos mercados financeiros, são particulares e são instituições públicas, daí decorrendo que a aceitação de soluções alternativas por parte dos designados “estados membros” está condicionada à convicção de que os compromissos assumidos com os mercados não serão postos em causa (estão a salvaguardar os interesses dos seus investidores financeiros);
4. Uma alternativa poderá ser o recurso aos Fundos mas, para além das exigências que nos serão feitas em termos de condução das políticas, económicas e sociais, não é seguro que venhamos a ter juros mais baixos do que os que já temos actualmente; e se entenderem que não nos estamos a portar bem, até podem interromper-nos as transferências de financiamentos, anteriormente acordadas;
5. Uma outra alternativa poderia ser o rompimento com o quadro da moeda única europeia (União Monetária), mas importa que estejamos bem conscientes das consequências que daí decorrem, por ex., em termos de descredibilização da moeda;
6. Para além disso, não basta que se tome a decisão de investir em crescimento para que daí decorra, necessariamente, crescimento e, muito menos, desenvolvimento.
E então?
Então, temos que começar por promover o aumento da consciência cívica de todos, também em matéria de economia, com vista a que tenhamos cidadãos, cada vez mais, donos do seu destino e, cada vez menos, correias de transmissão de interesses que os alienam, como até aqui, em grande medida, tem acontecido.
O resto só poderá virá depois.