Quando se abre a porta dos fundos não se ouve falar de outra coisa. Uns porque sim, outros porque não.
Porque sim e porque não, o quê? Os Fundos, claro, o de Estabilização Europeu e o Monetário Internacional.
Basta ouvir um pouco da música para se perceber que nem todos os que assobiam que sim, ou que não, o fazem pelas mesmas razões.
Entre os que acham que sim, há quem entenda que quanto mais depressa vierem os Fundos, mais rapidamente se faz, o que tem que ser feito (diminuição, dos salários, do emprego, do investimento, da produção, do endividamento, etc., etc.). Naturalmente que sabem que o “seu” permanecerá intocável.
Mas também há os que consideram que sim, porque crêem que já se foi suficientemente longe nos sacrifícios impostos aos que maiores dificuldades têm que suportar que, quaisquer que sejam os Fundos que vierem, em termos de sacrifícios, já não se poderá ir muito mais longe do que o que já foi. Pelo menos, sempre se poderia vir a pagar aos Fundos taxas de juro inferiores às do “mercado”. Para além disso, indo ao mercado, a conta gotas, nada garante que a sua continuada cartelização não provoque subidas cada vez maiores, da taxa de juro.
Para dizer não, também, há mais que uma razão. Dizem não, em primeiro lugar os que, directa ou indirectamente, lucram com as aplicações financeiras no “mercado” da dívida, beneficiando de taxas de juro cada vez mais elevadas (contrariamente ao que se possa pensar, cá dentro, há muita gente que compra a dívida nesses mercados). Invoca-se para isso, se necessário, que a ida aos Fundos é uma falta de patriotismo e contribui para o desprestígio nacional.
Também se pode dizer não porque, mesmo sem descurar a gravidade do problema do endividamento, se entende que ele nunca será resolvido de forma sustentável se se olhar apenas para a dívida, sem se ter em conta o que pode e deve ser equacionado num horizonte de longo prazo (o que quer dizer, já e a partir de hoje), i.e., aquilo que gera a dívida e a faz aumentar como uma bola de neve, ou seja a falta de desenvolvimento e de crescimento sustentável.
É um pouco como fazer uma caminhada num caminho pedregoso. Se o começamos a percorrer olhando, apenas, para os pés, para evitar tropeçar nas pedras pequenas, corremos um sério risco de, não tendo olhado para a frente, irmos de encontro a um grande pedregulho, que nos provoca uma queda de que dificilmente nos recomporemos sozinhos e, porventura, nos provoca uma queda no abismo.
Não é indiferente que se tenham Fundos, ou que não se tenham Fundos, mas o que é certo é que temos de mudar de vida. E mudar de vida significa termos comportamentos, sobretudo no domínio do consumo (de bens e serviços), que sejam compatíveis, com a evolução da nossa capacidade produtiva, ou seja, com a qualificação dos recursos a que podemos recorrer, com a nossa capacidade de organização e com os níveis de produtividade que conseguimos realizar, e podemos muito. Não há euro que indefinidamente nos valha se, para sobrevivermos, tivermos que recorrer, sistematicamente, à bondade do avozinho ou à herança que nos foi legada.
Significa isto estarmos a viver acima das nossas possibilidades? Sim e não. Claro que em termos globais (médios) estamos a viver acima das nossas possibilidades. Não significa isto que todos estejam a viver acima das possibilidades do país. O que acontece é que há uns que vivem abaixo das possibilidades que o país possui e outros que vivem acima dessas possibilidades, ou se quiserem, aquilo com que uns se abarrotam é o que falta todos os dias nos pratos dos outros. Um bom teste para saber quem são os primeiros e quem são os segundos seria verificar quem é que, com a crise, passou a ir menos vezes ao supermercado, à farmácia, a férias, etc. (ou, ainda, quem é que passou a lá ir mais vezes, porque não tem dinheiro suficiente para trazer tudo de uma só vez e tem que esperar que algum acréscimo de rendimento chegue para poder lá voltar e trazer o que poderia te vindo da primeira vez).
Saber porque é que há uns e outros entronca na compreensão das razões que geram a actual assimétrica distribuição de rendimentos que, contrariamente ao que por aí se diz, com frequência, tem mais a ver com mecanismos de produção (tecnologias) e repartição do valor criado, do que com esquemas correctivos da pré existente distribuição dos rendimentos .