29 setembro 2010

“A Areia dos Dias” - Um blogue na senda de um desenvolvimento humano

Em finais de Julho último, demos início a este blogue e chamámo-lo “A Areia dos Dias”.

Até agora usámo-lo como meio de comunicação entre os seus autores, todos eles membros do Grupo Economia e Sociedade da Comissão Nacional Justiça e Paz.
Nestes dois meses de vida do blogue, pudemos ganhar alguma experiência, acumular reflexões várias e ajuizar da vantagem de o darmos a conhecer a outros públicos potencialmente interessados em acompanhar e participar nas temáticas de que nos vimos ocupando.

Pensamos que o devemos fazer. Assim, a partir de hoje, “A Areia dos Dias” estará disponível para visitas e comentários e haverá um grupo de autores que assume o encargo de animar o blogue com a publicação regular de novos textos.

O mundo em que vivemos e a situação em que se encontra o nosso País, em particular, exigem a coragem de uma leitura lúcida e responsável da realidade e que aproveitemos a areia dos dias para procurar construir uma nova economia e organização da sociedade ao serviço de um desenvolvimento verdadeiramente humano.

22 setembro 2010

Para sair da crise é urgente uma estratégia de desenvolvimento

O debate em torno do défice das contas públicas tem vindo a polarizar de tal modo o discurso político-partidário, com a correspondente amplificação por parte dos media, que corremos o sério risco de continuar a passar ao lado dos verdadeiros desafios que o País atravessa no indispensável acertar do caminho para um desenvolvimento sustentável, base de consolidação da própria democracia.

Entrevistas, sondagens de opinião junto dos cidadãos e cidadãs comuns, programas televisivos de larga audiência, tudo converge para nos fazer crer que o cerne da crise reside numa despesa pública excessiva ou na falta de competitividade da nossa economia no mercado mundial e é deste olhar míope que se parte: no primeiro caso, para fomentar a crença de que são inevitáveis cortes nas despesas do Estado (redução de serviços e prestações sociais, deslocalização de serviços públicos para o sector privado e mercantil, mais privatizações; alienação de capitais públicos); no segundo caso, ou seja para fomentar a competitividade, argumenta-se que há que baixar os impostos, reduzir salários e multiplicar os incentivos do Estado às empresas.

E tudo isto, feito num ambiente de crispação, que parece visar mais efeitos psicológicos com previsíveis interesses partidários do que o real enfrentamento dos problemas e a procura das suas verdadeiras soluções.

Considerando a  proximidade da discussão em torno do Orçamento do Estado, afigura-se-me tarefa urgente reposicionar o debate em torno de uma estratégia de desenvolvimento nacional que tenha na devida conta eixos fundamentais como sejam os seguintes:

- a reestruturação do papel do estado, nomeadamente no que se refere à definição das respectivas funções, serviços que deve prestar e papel a desempenhar na orientação geral da economia;

- os objectivos e as metas de um desenvolvimento humano sustentável (em vez da discussão em torno do mítico indicador de crescimento do PIB) e respectivo planeamento a prazo, sem esquecer a política de valorização da agricultura e da floresta, a política industrial, o encaminhamento para a economia baseada no conhecimento, a valorização de recursos próprios como os recursos marítimos, o turismo, as potencialidades das energias renováveis ou as capacidades tecnológicas já disponíveis;

- o aperfeiçoamento do sistema de saúde e prestação de cuidados generalizados e com qualidade a toda a população;

- a orientação do sistema de educação, com o que tal comporta de definição de prioridades em matéria de conteúdos, de recursos a disponibilizar e de condições de uma gestão eficiente;

- a qualidade da justiça e a capacitação do sistema de justiça para enfrentar os novos desafios da corrupção e criminalidade económica, da delinquência juvenil, das organizações mafiosas e seus tráficos ilícitos de armas, drogas, ou tráfico humano;

- o ordenamento do território, as acessibilidades, a reabilitação urbana e, de modo geral, a correcção das grandes desigualdades de oportunidades a nível regional que continuam a ensombrar a coesão nacional;

- a correcção das desigualdades na apropriação da riqueza, nos níveis de remuneração do trabalho, na fiscalidade, que ofendem os direitos de cidadania;

- a erradicação da pobreza, nomeadamente no que se refere à pobreza infantil, quebrando definitivamente o elo de transmissão geracional da pobreza e pondo termo a esta grave violação de direitos humanos;

- a criação de condições favoráveis à conciliação da vida profissional com a vida pessoal, família, pessoal e cívica;

- a definição de objectivos e metas de uma estratégia de sustentabilidade ambiental.

Estas são algumas das questões que, a meu ver, merecem um amplo e urgente debate nacional com vista a obter resultados concretos que viabilizem a definição de um plano estratégico de desenvolvimento para os próximos 4-5 anos, vinculativo para além do calendário eleitoral.

Sem este esforço de planeamento concertado, não vejo saída para esta crise, que se diz ser de desequilíbrio das contas públicas, porque ela, em boa verdade, é uma crise estrutural e com raízes muito fundas, só podendo ser enfrentada no quadro de uma visão compreensiva da realidade e assente em opções que reunam um largo consenso nacional.

17 setembro 2010

Transforming Finance

On Sept. 13, 2010, the Committee on Transforming Finance recognizes Finance as a Global Commons and commits responsibility to reforming it from within, as active participants and beneficiaries of capital markets.
It poses key questions as to the purpose of finance not answered in recent regulations and attempts at financial reform, and calls for action to bring about the necessary transformation.
Ladislau Dowbor is one of the signatories of the Transforming Finance Statement.

15 setembro 2010

«Manifesto dos Economistas Aterrados»

Publicou o Le Monde de 15.09.2010 uma entrevista a Philipe Askenazy, director de investigação no CNRS, onde este chama a atenção para a necessidade urgente de uma reflexão profunda acerca da política económica que tem vindo a ser seguida na Europa, dos seus fundamentos (sobretudo ideológicos) e do seu impacto, actual e futuro, sobre a população.
Como afirma Askenazy, a construção de uma nova politica económica com fundamento teórico, será o primeiro passo para levar os políticos a uma mudança de rumo.
Tal só é possível com o envolvimento e o debate sério em que os economistas, em particular, têm o dever de se empenhar. Por isso é de saudar o «Manifesto dos economistas aterrados» de que o entrevistado é um dos subscritores.
Não se limita o Manifesto a denunciar as falsas evidências que ditam as escolhas das políticas económicas e sociais, completa o exercício com propostas bem fundamentadas de novas politicas.
Para os que querem uma União Europeia mais eficiente e, sobretudo, mais justa, este documento oferece abundante matéria para reflexão e debate.

11 setembro 2010

ODM - Nova Cimeira


Na próxima semana vai reunir-se a Cimeira da ONU para avaliar o cumprimento dos Objectivos do Desenvolvimento constantes do Pacto firmado no início do Milénio. Decorridos dois terços do período previsto para sua concretização, há que reconhecer que só um redobrado esforço por parte de todos os países e instâncias internacionais poderá permitir chegar a 2015 com resultados desejáveis. A Cimeira servirá certamente para criar novo elan nesse sentido. Contudo, o mais importante será o trabalho de reconhecimento dos obstáculos de natureza estrutural geradores da pobreza a nível mundial e, em particular, a possibilidade de adoptar soluções para crise financeira e suas consequências sobre o aumento da pobreza e exclusão social. As organizações não governamentais estão empenhadas em levar à Cimeira propostas de reformas estruturais.  [ CONSULTAR AQUI ]

ODM - Objectivos de Desenvolvimento do Milénio Site Oficial ]

03 setembro 2010

Big Society Bank

É interessante ver que, depois da longa discussão pelo Partido Trabalhista, foi um Primeiro Ministro Tory que concretizou, em Julho, a criação do conceito Big Society Bank. É uma nova maneira de lidar com problemas da sociedade e do desemprego. Em vez de subsidiar a existência das pessoas e projectos sociais, o Governo oferece financiamento para empreendorismo e projectos sociais liderados pelos privados. Os primeiros fundos estarão disponiveis em Abril de 2011.
Uma vertente importante é que o Banco também será apoiado pelos investidores privados. O Governo foi aconselhado por Sir Ronald Cohen, uma das grandes figuras do mundo de Hedge Funds e fundador do Bridges Ventures Community Fund, um "private equity fund" com critérios económicos, sociais e ambientais, e por David Blood, antigo Sócio de Goldman Sachs, que, depois de sair do banco, fundou Generation Investment Management com Al Gore, para investir segundo critérios de sustentabilidade. Vale a pena ler o artigo de Blood, Sustainable Capitalism.

The sands are shifting!?