25 março 2019

Ver mais além

Na Fundação Calouste Gulbenkian decorre, durante o dia de hoje, uma conferência promovida pelo GES - Economia e Sociedade subordinada ao tema “Pensar o Futuro” cujos objectivos e justificação mereceram destaque na alocução inicial:

(...)
Tal como constatamos, há três anos, reconhecemos, hoje, o valor e a urgência de uma estratégia nacional de desenvolvimento a prazo que vá para além dos ciclos eleitorais e sirva de guia para a tomada de decisão por parte de governos e demais órgãos políticos, agentes económicos, organizações da sociedade civil e dos próprios cidadãos nas suas vidas pessoais e familiares.

Pensar o futuro não é tarefa fácil, mormente quando a complexidade, a aceleração da mudança e a incerteza têm de ser factores devidamente considerados, quando a globalização e a financeirização ganham terreno e os seus poderes se sobrepõem ao poder dos estados, quando se abalam os alicerces dos equilíbrios geopolíticos e quando é frouxo o quadro dos valores éticos que servem de matriz à vida das instituições e tornam imprevisíveis os seus comportamentos.

Contudo, esta dificuldade real não deve servir de argumento para a inércia e a navegação à vista. Ao invés, reforça a necessidade do empenho e da urgência da acção que vise a definição e implementação de uma estratégia de construção do futuro; estratégia flexível, mas robusta.

(...)

A entrada é livre.

20 março 2019

GES - CONFERÊNCIA PENSAR O FUTURO


Conferência Pensar o Futuro


Economia e Sociedade

Pensar o Futuro



9h30 - Conferência principal: Pensar o futuro

Filipe Duarte Santos (FC/UL)

11h30 - Painel I - Território, desenvolvimento e coesão

territorial

Manuel Brandão Alves (GES)

José Reis (UC)

Helena Freitas (UC)

Moderadora: Sandra Monteiro (Le monde diplomatique)

14h30 - Painel II - Inovação tecnológica. Conhecimento.

Futuro do trabalho

Margarida Chagas Lopes (GES, Socius)

Paulo Pedroso (Administrador Executivo Suplente no

Banco Mundial)

Helena Lopes (ISCTE)

Moderadora: Ana Cardoso (CESIS)

16h30 - Painel III - Por uma sociedade desenvolvida,

inclusiva e de coesão social e geracional. O futuro do

estado social.

Carlos Farinha Rodrigues (GES, ISEG/UL)

Nuno Ornelas Martins (UCP – Porto)

Aurora Teixeira (FEP)

Moderadora: Isabel Guerra (DINAMIA,CET do ISCTE)

17h45 - Sessão de Encerramento

Manuela Silva (GES)

Guilherme Oliveira Martins (FCG)




25 MARÇO 2019
9H30-18H00
FUNDAÇÃO CALOUSTE
GULBENKIAN (ANF. 3)

17 março 2019

A Magia do "Novo" (3.º e último Episódio) - Privatização ou Nacionalização?


O poeta diz que o menino que acabara de nascer é:
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
João Cabral de Mello Neto, Morte e Vida Severina

PRIVATIZAÇÃO OU NACIONALIZAÇÃO?

Dos resultados da privatização já falámos quanto baste. Não vale a pena imputar culpas ao Lone Star. Elas devem, antes, ser atribuídas a quem concebeu os mecanismos do Fundo de Resolução e não foi capaz (ou talvez tenha sido!) de perceber que, com os procedimentos previstos, o resultado não podia ser outro. O Lone Star apenas deles se tem vindo a aproveitar, como resultava da sua natureza.

Em vez da privatização a outra alternativa, que poderia ser utilizada, era a da nacionalização, como antes foi referido. Tem-se dito que a nacionalização teria custado ao Estado português muito mais do que o que já custou a solução da privatização. Não percebo! Talvez porque o que tem sido dito não tem sido explicado.

Eu também não sei dar as explicações, mas há perguntas que têm de ser feitas. Em primeiro lugar, porque é que a nacionalização deveria custar mais ao Estado do que custou a privatização? O Lone Star pagou zero para ficar com 75% do Novo Banco. Porque é que o Estado deveria pagar, a si próprio, mais? Só se for por causa dos 1 000 milhões de euros que lá foram injetados pela Lone Star, mas isso não foi grande coisa para quem ficou com 75% do capital e, desse modo, com poder para conduzir as orientações estratégicas do banco. 

Ora, dado o seu currículo, o Lone Star em vez de tentar recuperar ativos tóxicos, terá é interesse em que eles se desvalorizem, porque sabe que, sem custo para ele, o Fundo de Resolução lá meterá o dinheiro que for necessário para compensar a sua desvalorização e, depois, poderá proceder à venda dos ativos ao desbarato. Isto é, as habilidades de gestão fraudulenta que vier a praticar continuam a custar zero ao Lone Star.  Se o banco tivesse sido nacionalizado era possível admitir que, com uma gestão mais criteriosa, as perdas da desvalorização não se teriam verificado.

Tem-se invocado como argumento contra a nacionalização as dificuldades que a União Europeia poderia colocar à implementação desta solução. Não se percebe porque é que haveria de colocar dificuldades a Portugal, quando não as colocou em outros países, por ex., em Itália, com a recapitalização do banco Monte dei Paschi di Siena. Para além disso, a nacionalização, dadas as condições em que se fez a partição do BES, só poderia ser, segundo Bruxelas, uma nacionalização transitória, logo, envolvendo menos dificuldades do que se tratasse de uma nacionalização definitiva.

Poderá ser invocada uma outra dificuldade que tem a ver com a possibilidade da intervenção do Fundo de Resolução, no caso da nacionalização. Haverá quem argumente que o Fundo de Resolução pode fazer financiamentos ao banco no caso da Lone Star, mas não o pode fazer no caso da nacionalização. Não sei se há alguma restrição de Bruxelas ou de Frankfurt sobre esta matéria, mas o que é certo é que não se compreende porque é que o Fundo de Resolução (de que é dono o nosso sistema financeiro) haveria de financiar o banco (que é um Fundo, que tem sido designado como abutre) quando ele é privado e não o pode fazer quando quem compra é o Estado.

Mas há mais. Não se pode dizer que é despiciente o banco poder ser considerado como um centro de decisão nacional ou não. É bom não esquecer que o BES e depois o Novo Banco constituem uma das principais fontes de financiamento do tecido produtivo nacional, nomeadamente das pequenas e médias empresas. Na tradição das intervenções do Lone Star, se este vier a alterar a sua estratégia, numa fase da economia portuguesa, em que necessitamos de recuperar e acelerar a atividade das empresas, vamos ter um grande problema. Depois queixem-se de que a economia não recupera!

Dito isto, pode-se-lhe chamar tudo, mas Novo, como na “Morte e Vida de Severina”, é que não.

15 março 2019

A Magia do "Novo" (2.º Episódio) - O "Novo Banco"

O poeta diz que o menino que acabara de nascer é:
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
João Cabral de Mello Neto, Morte e Vida Severina

O NOVO BANCO
Esclarecidas as questões essenciais acerca do aparecimento e funcionamento do Fundo de Resolução, pode, agora, compreender-se melhor o que se está a passar com o Novo Banco. Tentemos perceber de onde é que vem o problema.

O monstro em que se transformou o Banco Espírito Santo (BES) e as suas organizações satélites é de uma selvajaria inimaginável. Pouco a pouco, percebendo-se como é que lá se chegou, não se podia continuar a deixar o monstro andar à solta. E,mesmo assim, demorou-se demasiado tempo a atuar.

Em termos simplificados, pode dizer-se que o negócio de um banco consiste em ser intermediário entre aqueles que dispõem de recursos financeiros e os que os não têm, mas deles necessitam. Quando o banco reúne recursos financeiros a partir de terceiros,  fica com uma dívida perante eles. É o “Passivo” do banco. Quando pega nesses recursos e os aplica ou empresta a outros constitui, ou alimenta, o seu “Ativo”. Se tudo funcionar bem, o Ativo, quer pelo seu montante, quer pelos rendimentos que gera, deve ser capaz de poder, reembolsar o Passivo, compensar as despesas de funcionamento do Banco, pagar remunerações e ainda gerar lucros.

E pode haver problemas? Parece que não deveria haver nenhum. Pois parece, mas não é. Eles surgem quando o banco, depois de ter reunido os recursos financeiros (em grande parte depósitos), se vai entreter em gastá-los em "casinos" e outras casas de má fama, voltando para casa com os bolsos vazios. E se os bolsos estão vazios, então, os que lá meteram as suas poupanças ficam a arder, como se costuma dizer.

Haverá quem diga que se tal acontecer aqueles que se meteram com bancos que aguentem! Se perderem os depósitos que lá colocaram  ou outras aplicações que realizaram, é porque tinham dinheiro a mais do que aquilo que necessitavam para as suas despesas. Porque é que havemos de ser nós, que não temos nada a ver com isso, a pagar as suas aventuras?

Não é bem assim, porque entre os depositantes, há grandes depositantes, mas também há gente que lá colocou pequenos depósitos, que lhe confiou as poupanças que fez para a suportar as despesas da velhice. São fins que tem pouco a ver com especulação. Mais, parte substancial desses depósitos podem também ser constituídos por aplicações de instituições do Estado, a Segurança Social, por ex. Não é, por isso, coisa que não nos deva incomodar. Não pudemos, pura e simplesmente dizer: deixem lá o barco ir ao fundo!

Se era preciso intervir, qual poderia ser, então, a solução? No essencial havia duas: ou se fazia intervir o Fundo de Resolução ou se nacionalizava o banco. Comecemos pela primeira.

Quem teve que ver com a forma como o Fundo de Resolução ia resolver a questão entendeu dividir, quer o Ativo, quer o Passivo, do BES, em dois conjuntos. Relativamente ao Ativo, o primeiro conjunto seria constituído pelas aplicações anteriormente feitas pelo banco (créditos) e que se entendeu que podiam ser recuperadas. Chamam-lhe ativos não tóxicos. Do lado Passivo ficaram os depósitos, na sua quase totalidade, com exclusão, entre outros, dos ligados à família Espírito Santo.

Com estas partes do Ativo e do Passivo, constitui-se o “Novo Banco” que tem sido referido como Banco Bom (veremos mais abaixo que não é tão bom quanto isso). Para que pudesse começar a funcionar com algum conforto o Estado financiou o seu capital social com 4 900 milhões de euros. As partes que foram consideradas como tóxicas, quer do Ativo, quer do Passivo, ficaram no BES, também designado como Banco Mau (tem-se dito que o seu Ativo nem sequer dá para pagar três por cento do Passivo).

O Novo Banco, que deveria ser como um caderno limpo, veio a revelar-se como estando já bastante gatafunhado e ser tudo, menos novo. Com efeito, pouco tempo depois de  o Fundo ser criado, o Banco de Portugal (que superintende o Fundo de Resolução) suscitou que financiamentos adicionais fossem feitos ao Novo Banco, porque, afinal, também lá havia ativos tóxicos, ou ativos que não foram inicialmente considerados como tóxicos, mas que vieram a tornar-se tóxicos, ao contrário do que tinha sido dito ou previsto, anteriormente. 

O que é que poderá explicar esta mudança de clube? Não sabemos bem, mas há, pelo menos, duas explicações possíveis. A primeira é a de que no momento da criação do Novo Banco já lá havia ativos que não foram considerados como tóxicos, mas que já o eram (avaliação mal feita). A segunda é a de que, nesse momento, não havia ativos tóxicos, mas que vierem a sê-lo posteriormente. 

E porquê? Não é difícil encontrar uma explicação. É que dados os termos de funcionamento do Fundo de Resolução, quem tinha um crédito que pensava pagar ao banco, entendeu que o melhor era não pagar, porque sempre haveria alguém que pagaria por eles. Se nada lhes acontecer e está a demorar demasiado tempo a acontecer, isto é puro banditismo, tanto da parte de quem resolve não pagar, como da parte de quem deveria reprimir essa prática e não o faz. E o Lone Star não está imune a este comportamento, como veremos abaixo. Apetece perguntar: e quem concebeu o funcionamento do Fundo de Resolução não se apercebeu disto?

Entretanto, como o Fundo de Resolução não tinha lá dinheiro que chegasse para financiar a resolução, pediu-se que fosse o Estado a realizar o financiamento, o que ele fez e passou a dizer-se que o Estado fez um empréstimo ao Banco.

Levantou-se o clamor público: então é com o nosso dinheiro (Orçamento do Estado) que se vai impedir o banco de ir à falência, ficando eles a ganhar e nós a perder? Veremos que não é bem assim.

Mas a telenovela continua. Passado algum tempo entendeu-se que o Novo Banco deveria ser vendido. Estudaram-se as condições, tornou-se pública a intenção, várias entidades manifestaram-se interessadas, lançou-se um concurso e concluiu-se que, os interessados tinham “levantado a tenda”, menos um, o Lone Star (Fundo que tem pouco a ver com bancos e mais com especulação imobiliária). Governo e Banco de Portugal entenderam não se deveria esperar por outras alternativas.

Então, o Lone Star, que anda neste negócio de recuperação de bancos falidos, desde 1995, não tendo vocação para ajudar bancos e países em dificuldades, pôs as suas condições. Permito-me salientar as seguintes: ficar com o banco a custo zero, realizar uma subscrição de capital de, apenas, mil milhões de euros e obter uma garantia inicial (chamam-lhe imparidades contingentes) para um montante de quatro mil e novecentos milhões de euros, segundo a qual o Estado português, através do Fundo de Resolução, se obrigava a financiar as imparidades que se viessem a verificar, até um teto de 3900 milhões de euros. Dos restantes mil, 300 ficavam para o Fundo de Resolução e 700 para os Bancos.

E assim tem vindo a acontecer. O Lone Star não se distraiu. Não veio para o Novo Banco para perder dinheiro! Logo que surgiram imparidades, em vez de as tentar superar, apresentou a conta e assim continuará no futuro. Para o Lone Star é muito mais fácil ir buscar dinheiro ao Fundo de Resolução do que empenhar-se em superar as imparidades.

Passou a dizer-se que o dinheiro que o Estado colocava no Fundo de Resolução não era dinheiro a fundo perdido, mas um empréstimo feito ao Fundo, cujos donos (os bancos) se obrigavam a pagar com juros, num horizonte que, primeiro era de um ano ou dois e depois passou a ser de 26 anos. Tem-se afirmado que, com isto, nem um cêntimo sai do bolso dos portugueses. Canção de embalar para o Festival da Canção? Já vamos ver.

Se se continuam a verificar imparidades nos ativos do Novo Banco, quando se começou por dizer que aquilo estava tudo limpinho, então o banco bom estava, afinal, armadilhado. E como disse o Sr. Primeiro Ministro, o que saiu na rifa foi um banco mau e um banco péssimo.

A propósito do custo zero para os bolsos dos portugueses, alguma perplexidade permanece. Mesmo que os financiamentos do Estado venham a ser devolvidos num prazo de 26 anos (veremos se os bancos ainda estarão lá para o fazer), se os financiamentos feitos ao Fundo de Resolução, como tem exigido o Eurostat (responsável pelas estatísticas da União Europeia) forem contabilizados no orçamento, então isso significa que o deficit vai aumentar. E, como muito bem tem dito o Sr. Ministro das Finanças, quando o deficit aumenta, aumentam as dificuldades de financiamento da economia portuguesa, os juros ficam mais caros. 

Para além disso, o que vai para o Fundo de Resolução deixa de estar disponível para utilizações alternativas, por ex., investimentos públicos, de que a economia nacional tanto necessita. Não se esqueça, também, que a CGD também contribui para o Fundo de Resolução e, como é um banco público essas contribuições, que não são reembolsáveis,  são dinheiro perdido para os portugueses.
Todas as dificuldades enunciadas, não há ninguém que as pague a não ser os portugueses. Afinal, não é a custo zero!

Finalmente, os financiamentos do Estado ao Fundo de Resolução têm sido designados como empréstimos.  Mas se são empréstimos, porque é que o Fundo de Resolução não se financia junto do sistema financeiro como, aliás, o próprio Estatuto do Fundo o prevê? Parece-me que anda aqui gato escondido com cauda de fora!

Daqui a dois dias veremos o 3º e último episódio.

13 março 2019

A Magia do "Novo" (1.º Episódio) - O Fundo de Resolução


O poeta diz que o menino que acabara de nascer é:
— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
João Cabral de Mello Neto, Morte e Vida Severina

É esta a magia do novo: a capacidade de alegrar e transformar o que já existe. Traz consigo a alegria e a felicidade. Magia, também, existe, quando tudo levava a crer que vinha aí o melhor dos mundos e, afinal, o que se verifica é que só veio a tragédia. É magia, porque por qualquer ato de prestidigitação, o mago lançou um mau olhado que que parece transformar o “bom” em “mau”.

Vem isto a propósito da magia do “Novo”, o “Novo Banco”. Só que, apesar do nome, este Novo não traz a beleza do recém-nascido como se esperaria pelo que foi anunciado, mas antes um “caderno” em que a falta de limpeza é o traço mais saliente. Onde é que está, então, a magia? Temos que ir devagarinho porque, a matéria parece complexa, talvez tenha sido mal explicada e esta “não é a minha praia”. Contudo, como qualquer outro cidadão, eu e vós temos o direito a perceber o que se passa.

Ora o que é verdade é que a maioria as explicações que nos têm sido dadas, em vez de trazerem esclarecimento, transportem cada vez maiores interrogações. Porventura, em vez de estarmos à espera de explicações mais claras do que as que nos têm sido dadas,  e que quem as deveria dar não está em condições de fazer, importa começar por ser capaz de colocar as perguntas corretas.

Sobre estas questões decidi publicar três posts: um primeiro sobre o Fundo de Resolução, o segundo, sobre a criação do Novo Banco e a sua venda ao Lone Star e o último, sobre a alternativa da nacionalização. 
O FUNDO DE RESOLUÇÃO
Vamos por partes. Temos que começar antes de o “Novo” ter nascido. Da crise de 2008 não é preciso falar muito, apenas sublinhar que é, em grande medida, a mãezinha disto tudo. A grande maioria sentiu-a bem na pele. É conhecido que começou por ser uma crise do sistema financeiro. Com ela tomou-se consciência que qualquer problema que afetasse uma instituição financeira poderia, rapidamente, transferir-se às outras, dado o elevado grau de interdependência do sistema. Passou a dizer-se que, o risco ou a crise, gerados, eram sistémicos.

Embora tarde, mas ainda assim procurando evitar que a epidemia continuasse a alastrar, o Parlamento Europeu e o Conselho adotaram uma Diretiva que tinha como objetivo estabelecer “regras e procedimentos relativos à recuperação e resolução” de entidades financeiras. E aqui está a justificação para se perceber essa estranha designação, de que tanto se tem falado:  a Resolução dos Bancos. Resolver um banco significa, por isso, dar resposta às dificuldades em que ele se encontra (sempre nos podemos perguntar se não poderiam ter arranjado um termo mais transparente para se referirem ao que entendiam que se deveria fazer!).

Estabelecida a “Diretiva Europeia”, coube aos Estados Nacionais criar os mecanismos da sua aplicação. Como os riscos de crise eram sistémicos entendeu-se, e bem, que deveriam ser a instituições financeiras nacionais a financiar as medidas que fossem necessárias para recuperar os bancos. Não estava mal pensado, porque como faziam todos parte da mesma “tribo”, assim controlavam-se mutuamente para que as suas contribuições para o Fundo fossem as menores possíveis. 

O mecanismo de regulação das intervenções junto dos bancos em crise foi sofrendo evoluções: primeiro Fundo de Resolução, depois, Mecanismo Único de Resolução. Nos nossos medias tem-se falado, sobretudo de Fundo de Resolução.

Ao Fundo de Resolução compete: “prestar apoio financeiro à aplicação de "medidas de resolução" adotadas pelo Banco de Portugal (o Regulador) e desempenhar todas as demais funções que lhe sejam conferidas pela lei no âmbito da execução de tais medidas”. Quer dizer, se é o Banco de Portugal que determina as medidas de resolução (recuperação) junto dos bancos, deveria esperar-se dele a adoção de medidas preventivas para que tal não acontecesse. O que temos ouvido dizer é que o Banco Central se tem eximido à adoção de medidas preventivas eficazes.

Como é compreensível as instituições não deitaram foguetes com a criação do Fundo de Resolução. É que, embora sendo todas “irmãs”, sempre pensaram que cada uma deveria resolver os seus problemas sem incomodar os outros. Apesar desta reação inicial também é verdade que com rapidez se adaptaram à exigência, o que é compreensível. De fato o Fundo tinha disposições que previam que no caso de o seu capital ser insuficiente para financiar as intervenções, ele poderia recorrer a empréstimos ou (e) financiamentos do Estado.

Como tinha sido criado há pouco tempo o capital ainda não existia em volume suficiente para fazer face às intervenções que se exigiam. Por isso, o recurso a financiamentos exteriores surgiu com celeridade.  Daí que tanto se tenha vindo a falar de financiamentos do Estado ao sistema bancário e o que daí advém, ou não, para o bolso dos portugueses.
Dentro de dois dias veremos o 2º episódio.

05 março 2019

Por onde vai a escola pública em Portugal?

Por estes dias decorrem nas escolas públicas reuniões de preparação do novo ano lectivo, com o objectivo de implementação de uma directiva do Ministério da educação que visa introduzir, a partir de Setembro, em todo o sistema, a chamada “flexibilização curricular dos ensinos básico e secundário”, autorizada em regime de experiência pedagógica no ano de 2017-18, por despacho ministerial, e levada à prática em alguns agrupamentos escolares, por decisão dos seus respectivos órgãos de gestão.

Envolta com espesso manto de silêncio, está em marcha uma reforma profunda da escola pública. Sem debate político; sem auscultação, séria e consequente, por parte do corpo docente das escolas e dos seus órgãos directivos; sem respeito pela Lei-Quadro em vigor; sem uma avaliação devidamente escrutinada da experiência pedagógica realizada.

Não se ignora a importância de uma gestão de currículo adequada ao respectivo contexto, que tenha na devida conta a motivação dos alunos e a sua participação nos processos de aprendizagem, como se propõe. Há, porém, que assegurar a consecução de objectivos gerais de conhecimento, de aquisição de conceitos e ferramentas de construção de pensamento crítico, de capacitação para o exercício de uma cidadania responsável e inserção na vida colectiva, de respeito pelo enquadramento da Lei Geral.

Não se vê que tais objectivos sejam alcançados, a partir de currículos construídos com base em sugestões dos próprios alunos, dos seus interesses imediatos e dos ensinamentos avulsos ministrados por docentes de várias disciplinas, quando tais conhecimentos venham a propósito de temáticas selecionadas pelos alunos. A avaliação de experiências já realizadas neste sentido mostra, precisamente, o contrário. Com efeito, por esta via, não se adquirem conceitos e outras ferramentas básicas de conhecimento científico, imprescindíveis para se avançar no conhecimento em geral. Nem se treina devidamente o esforço de aprender e o rigor do conhecimento.

Por outro lado, a flexibilização curricular leva à semestralidade de algumas disciplinas básicas, com consequente encurtamento dos conteúdos dos seus respectivos programas actualmente em vigor e à correspondente degradação do nível geral de conhecimento, com consequências graves no que se refere à desigualdade nas oportunidades de prosseguimento de estudos superiores e, obviamente, também com maior desigualdade nos resultados das provas de aferição geral de fim de ciclo, dada a diversidade das abordagens e temáticas diversamente seleccionadas.

A sedução da palavra “flexibilização” esconde, assim, riscos sérios de degradação da escola pública, com nefastas consequências futuras difíceis de avaliar. Riscos estes que vêm somar-se aos inerentes ao processo de municipalização em curso, se este não for conduzido com a devida prudência e sentido de responsabilidade por este bem comum que é o direito à igualdade de oportunidades de acesso e sucesso da educação para todos.

O experimentalismo não é bom conselheiro, sobretudo quando estão em causa processos com efeitos de longo prazo, como é o caso da educação das novas gerações. O manto de silêncio que, presentemente, o encobre na área da governação da educação (como em outras) diz muito da desatenção crónica dos cidadãos aos reais desafios da nossa sociedade e da irresponsabilidade dos políticos face à construção do futuro, envolvidos que ficam na miopia da casuística mais imediata.

Foi assim com a política de “inclusão”, talvez generosa na sua intenção, mas que deixou sem os devidos cuidados especiais muitas crianças e jovens com necessidades educativas especiais, interrompeu o trabalho que vinha sendo desenvolvido por técnicos da especialidade e sobrecarregou com tarefas suplementares os docentes com prejuízo da sua função específica.

Aqui fica o alerta, na cnvicção de que, por mais sumida que seja a nossa voz, não podemos deixar de tentar fazê-la ouvir, quando está em causa o futuro de uma geração. Como disse a jovem Greta Thunberg: Aprendi que nunca se é demasiado pequeno para fazer a diferença.

Fico na expectativa de que surjam outras vozes mais audíveis que a minha.

PS A este propósito lembro a edição em dois volumes de Pensar a Educação (2016) com um conjunto de reflexões que continuam de actualidade.