10 maio 2018

Debater o Futuro do Trabalho


Em 2019 celebra-se o centenário da Organização Internacional do Trabalho (OIT), tendo o seu o seu Director-Geral proposto que o tema de fundo comemorativo do centenário fosse um debate sobre o “Futuro do Trabalho”. De acordo com a metodologia adoptada por esta organização, a discussão do tema obedecerá ao espírito tripartido da OIT, isto é, envolvendo os governos e os representantes dos empregadores e dos trabalhadores.

Com a finalidade de trazer a discussão para o interior de espaços privilegiados de produção de conhecimento científico, foi lançado o desafio, que o Centro de Estudos Sociais/Universidade de Coimbra e o escritório da OIT em Lisboa abraçaram, de levar o debate aos estudantes universitários.
A Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra concordou em hospedar, logo em 2016, uma iniciativa de simulação da Conferência Internacional do Trabalho, que envolveu 300 “delegados”, entre os estudantes das licenciaturas, mestrados e doutoramentos daquela Universidade, que se colocaram na pele de representantes dos governos, dos empregadores e dos trabalhadores.

O resultado do trabalho realizado por estes estudantes foi publicado num livro, organizado pelo Professor Hermes Augusto Costa[i]. Podemos por isso aceder não só à identificação pelos estudantes de alguns dos principais problemas com que se defronta o mundo do trabalho, como também a propostas concretas de solução.

Foram constituídos quatro comités, que abarcam uma diversidade de áreas: i) A macro regulação económica do emprego. Do pleno emprego à plena empregabilidade? ; ii) Novas tecnologias: fim do trabalho ou fim do emprego? ; Trabalho desigual? Novas formas de desigualdade e a organização do trabalho; iv) O futuro das relações do trabalho: direito ao trabalho e o direito do trabalho.

Em qualquer destas áreas, foram apresentadas as posições consensualizadas dos jovens que aceitaram o desafio que lhes foi proposto, num momento de profundas transformações do trabalho, cujos contornos futuros permanecem ainda imprecisos. Trata-se afinal de mobilizar para a reflexão aqueles que se vão defrontar com os novos desafios colocados ao trabalho e que vão ser os responsáveis pelos caminhos futuros a percorrer. Torna-se por isso imprescindível escutar a sua voz.  


[i] “O Futuro do Trabalho em Debate. Simulação da Conferência Internacional do Trabalho na Universidade de Coimbra”. Imprensa da Universidade de Coimbra, 2017

09 maio 2018

“Eu sou a favor da descentralização, mas sou contra a regionalização”. Que enormidade!


Sim, uma enormidade. Os que o orgulhosamente isto proclamam, e são muitos, demonstram que compreenderam pouco sobre os fundamentos, tanto da descentralização, como da regionalização. Nos fóruns políticos e mediáticos tudo tem sido feito para que essa compreensão não aumente.
Diz-se que a descentralização consiste na transferência de competências do Estado Central para as autarquias locais. Não poucas vezes, em lugar do termo “transferências” utiliza-se o de “delegação”, ou usam-se de forma indiferenciada, como se de uma e a mesma coisa se tratasse.
Este entendimento atribui à descentralização conteúdos que estão longe de a poder esgotar. A consequência é a de que, por ex., no debate que está em curso, em que todos ganharíamos que fosse rigoroso e transparente, tudo se torna confuso, conduzindo a conclusões com pouca racionalidade e que não podem sustentar uma reforma durável.
Vejamos, então, quais são os fundamentos da descentralização. No funcionamento de uma sociedade democrática bem organizada, as decisões serão tanto mais eficientes (com menores custos para obter os mesmos resultados) e darão tanto mais satisfação aos seus destinatários, quanto mais forem tomadas por órgãos, ou instituições, que lhes são “próximas”. Esta noção de proximidade exige clarificação. É, também, aqui que o princípio da subsidiariedade, que muitos invocam, encontra o seu sustento.
Quando se fala de proximidade entende-se, com frequência, que a tomada de decisões é tanto mais próxima, quanto menor for a distância física que separa os destinatários de quem toma as decisões. É uma noção intuitiva, mas isso não basta para que seja suficiente. Pouco importa que a distância física seja minimizada, se a escala do território a que se refere não tem a dimensão para que a, ou as, decisões sejam eficientes. As razões da falta de eficiência podem ser múltiplas, mas as da falta de escala, quando existe, constitui um seu bloqueamento estrutural.
Vejamos, por ex., a decisão sobre a construção de uma via rápida unindo o território de três municípios. Pode defender-se que adquirido o entendimento de que a via deve ser feita, cada município assegurará a sua construção no território pelo qual é responsável. Não é difícil compreender que, em tal situação, se podem verificar incompatibilidades na execução e na sua gestão que podem não ser facilmente superáveis.
Pode, então, dizer-se que, se assim é, então a decisão sobre a construção da via deveria ser tomada pelo Estado nacional. Mas fica a pergunta: é desse modo que fica salvaguardada a eficiência que poderia ser obtida se o princípio da proximidade fosse considerado? Torna-se, também, evidente que a proximidade de eficiência, económica e social não se pode confundir com a proximidade física.
Isto é, estamos condenados a considerar que para a tomada de decisões só existem duas escalas: a municipal e a nacional? Claro que não, porque o argumento da proximidade também aqui deve ser tido em conta e conduz-nos a uma conclusão diversa. Como? Criando uma instância intermédia de decisão entre a escala municipal e a escala nacional. Mas claro que tal só tem sentido se a instância assim criada for dotada de autonomia em relação ao poder central, como a têm as autarquias locais.
A designação que uma tal instância intermédia pode vir a ter não é muito relevante; regiões, entidades intermunicipais, área metropolitanas, pouco importa, o que importa é que seja dotada de autonomia. É por essa razão que não colhe o argumento de que já se está a procurar formatar as competências e processos de tomada de decisões, por ex., das Comissões de Coordenação Regional (CCDR).
Estando justificada da criação da instância intermédia não lhe podem ser associadas as perversões, superáveis, que possam estar contidas nos mecanismos da sua implementação ou do seu funcionamento. As CCDR qualquer que seja a roupagem com que sejam apresentadas são sempre órgãos (delegados) da Administração Central. A sua qualidade de órgãos delegados não diminui em nada a sua importância. Não são é órgãos descentralizados.
Enquanto órgãos desconcentrados da Administração Central as CCDR deveriam, como o seu nome indica, ser capazes de, para o espaço a que se referem, coordenar o trabalho das delegações dos vários ministérios nesse território. Têm sido dados alguns passos muito pequenos nesse sentido, mas não com o vigor que seria desejável.
Embora disso menos se fale, estas dificuldades não são artificialmente criadas pelos principais responsáveis políticos, mas pelos pequenos mandaretes regionais que preferem depender de órgãos centrais da administração central que de órgãos regionais dessa administração. Esquecem que a coordenação feita pelas CCDR não impede que possam continuar a ser, também, órgãos delegados da administração central.
Definitivamente, deve, também, ser arredado o argumento da falta de dimensão do país para devam existir órgãos supramunicipais para tomada de decisões: vejam-se e estudem-se os casos da Bélgica, da Dinamarca, do Reino Unido, da Noruega, da Finlândia, etc. e constatar-se-á que assim não é.
O que acontece é que a criação de órgãos de decisão autónomos a nível regional pode vir a alterar os equilíbrios de representação partidária hoje existentes a nível nacional e sua projeção regional. A consequência é a de que o país paga, em termos de eficiência e de bem-estar, não o que são os seus interesses, mas antes os dos aparelhos partidários. Creio que isto explica muita da inação que tem existido nesta matéria.
Nada do que acabo de referir menoriza o papel dos partidos como sustentáculos inultrapassáveis da democracia. Queremos é uma democracia fundada em bases sólidas e não em alguns pés de barro.

07 maio 2018

A Reforma do ensino da Economia: umas tantas questões para reflexão


Antes de mais, porquê “Reforma”?

É grande a diversidade de designações que tentam abarcar o movimento amplo que põe em causa o ensino tradicional da Economia, tentando contrapor-lhe uma alternativa – ou talvez complementaridade?- de abordagem plural, consciente do real e tomando-o como foco, pluridisciplinar e necessariamente complexa. Ouvimos falar no “repensar da Economia”, no “reensinar da Economia”, na “Econonomia pós-crise” e em muitas outras expressões. O termo Reforma foi cunhado por um grupo de economistas, professores de Economia e jornalistas críticos do mainstream, como Steve Keen, da Universidade de Kingston ou Larry Elliott, editor de Economia do The Guardian, entre muitos outros; uma das suas actividades, inspirada no lançamento da Reforma de Martinho Lutero, consistiu num cortejo monástico que, em Dezembro último, afixou as suas Teses na portaria da London School of Economics.

Que fazer do contributo neo-clássico?

À parte os efeitos histriónicos de tal manifestação, interessa-nos considerar o significado de “reforma”: segundo o dicionário Priberan o termo tem, entre outros sentidos, os de “mudança operada tendo em vista um melhoramento” ou ainda “nova organização ou modificação de uma organização existente”. Ora quando consideramos as principais razões por detrás das Teses acima referidas, e desde logo a segunda, constatamos não só que os seus autores valorizam positivamente a contribuição histórica da abordagem neo-clássica no ensino da Economia como referem que a mesma…         
 is still useful,  [although] there is ample opportunity for improvement, debate and learning from other disciplines and perspectives
Assim, a crítica frontal à intenção monopolizadora da teoria neo-clássica, à sua incapacidade de auto-regeneração, à pretensa isenção de valores de que se reclama, à cisão entre o económico, o político e o social que tenta operar, à negligência a que vota os recursos naturais e a ecologia, à quase total omissão do papel condicionante das instituições, desde logo as financeiras, e da incerteza na tomada de decisões… que as Teses explicitam, não permite no entanto associá-las a uma proposta de erradicação pura e simples do contributo neo-clássico do ensino da Economia, apesar dos melhoramentos e modificações cuja indispensabilidade justificam. Se economistas e professores de Economia heterodoxos há que o defendam, o mínimo que se poderá dizer é que tal concepção não é, de facto, generalizável.

Analisando o vasto acervo já existente de programas “alternativos” de ensino de Economia, constata-se uma grande diversidade de situações, desde as que consistem em reformas completas dos programas de estudos[1], às que se caracterizam por um acréscimo de “disciplinas críticas” – como a História do Pensamento Económico, a Economia Política, a Ética em Economia, por exemplo – , obrigatórias ou opcionais, aos currículos de licenciatura convencionais[2]. No entanto, em nenhum dos casos assistimos à eliminação radical da escola neo-clássica, antes à proposta do seu ensino crítico e do seu complemento nos termos já descritos.

A que ponto é a Reforma condicionada pela inércia das instituições?

Como tem sido repetido pelas diferentes vozes da heterodoxia, o monopólio do pensamento dominante no ensino da Economia deve muito à natureza conservadora e resiliente de muitas instituições académicas, grandemente dependentes dos processos internacionais de avaliação, certificação e controlo de qualidade. Essa dependência, ditada essencialmente por razões de financiamento, leva a que as universidades e, especificamente, as escolas de economia, negligenciem frequentemente temas de investigação de interesse relevante para as sociedades em que se integram e metodologias de abordagem que trariam resposta para a solução de importantes problemas concretos para os quais os potenciais empregadores desejariam que tivesse havido formação. Como se tem referido, as matérias que as revistas ditas de referência rejeitam publicar e os conteúdos e pedagogias de ensino que as organizações de acreditação recusam validar tornam-se pura e simplesmente invisíveis. Poderá residir aqui uma das razões, para além das que já apresentámos, para que o modelo dominante e unidirecional de base neo-clássica não seja simplesmente erradicado pela Reforma?

Não será, então, de pugnar também pela Reforma das instituições de avaliação, financiamento e acreditação?

Sem dúvida que sim. Começam a surgir organizações com uma postura crítica e exigindo mudança de concepção e funcionamento de tais instituições, como por exemplo o Collectif Économie Gestion[3], o Institute for New Economic Thinking[4], diversas associações de Economia Política e, muito especialmente, inúmeros colectivos de estudantes e investigadores, enquadrados geralmente por professores heterodoxos de referência[5], como já vem sucedendo em Portugal.

Ou não fosse o empenho das novas gerações de alunos, docentes e investigadores, o melhor garante da inovação no ensino da Economia[6].







[1] Como, por exemplo, a Goldsmith University of London, cuja página oficial da licenciatura em Economia pode ser consultada em https://www.gold.ac.uk/ug/ba-economics/ ou a University of Greenwhich, igualmente de Londres, cujos currículos podemos consultar em https://www.gre.ac.uk/ug/business-school/l100.
[2] Como no caso da Northampton University, por exemplo – ver https://www.northampton.ac.uk/study/courses/economics-ba-hons/

[4] Cuja página oficial pode encontrar-se em https://www.ineteconomics.org/about

[5] Ver, por exemplo, The Post-Crash Economics Society, da Universidade de Manchester, e a sua publicação Economics, Education and Unlearning, http://www.post-crasheconomics.com/economics-education-and-unlearning/.

[6] O que dificilmente sucede quando a condição profissional de investigadores e docentes é fortemente marcada pela precariedade: os investigadores portugueses estão actualmente a ser recrutados pelas universidades através de associações por elas constituídas, com direitos do trabalho muito mais reduzidos do que se contratados directamente.

03 maio 2018

Uma justíssima homenagem a Francisco Pereira de Moura

Há notícias que gostamos de partilhar com quem nos segue neste blogue. Esta, por exemplo.

Ontem no ISEG/UL, um grupo de colegas, familiares e amigos de Francisco Pereira de Moura quiseram assinalar o 20º aniversário do seu falecimento, recordando e homenageando o professor, o pedagogo, o economista, o homem de acção política, o cidadão e cristão comprometido com o desenvolvimento do País e do mundo, a justiça social, a liberdade e a democracia. Esta homenagem contou com o apoio da Associação Portuguesa de Economia Política.

As diversas intervenções trouxeram para o momento presente a justeza do pensamento e da acção de Francisco Pereira de Moura, designadamente no que se refere à urgência da revisitação profunda da ciência económica e suas implicações na concepção e implementação dos curricula dos cursos de economia e gestão, no ensino e na aprendizagem da Economia. FPM, também neste âmbito, foi pioneiro.

Da minha intervenção naquela sessão de homenagem transcrevo o seu parágrafo inicial.

Se a morte não o tivesse surpreendido em abril de 1998, ou seja ainda em plena vida activa e com 73 anos apenas, Francisco Pereira de Moura teria, certamente, acompanhado com o seu olhar crítico, sentido social e saber de distinto professor de Economia, estas duas últimas décadas de profunda transformação por que tem passado a vida económica, social e política; nacional, europeia e mundial.Teríamos podido aproveitar da lucidez e clareza das suas análises e propostas e, acima de tudo, teríamos podido contar com o seu empenhamento generoso no combate político em prol de um país mais desenvolvido e mais justo na partilha dos bens e das oportunidades.

Homenagear alguém é trazer o homenageado ao presente, para com ele aprender e para prosseguir com a sua obra, preenchendo e habitando, com o cunho pessoal de cada um, o vazio deixado. Por isso escrevi como epígrafe:

Fique-nos da tua passagem o traço e a cinza/
E a crença de que o vazio é prenhe e habitado.

(José Augusto Mourão, in O nome e a forma)

30 abril 2018

A Evolução Tecnológica e a sua regulação


Um artigo hoje publicado no jornal Público com o título “Vai ocorrer uma catástrofe que nos vai obrigar à regulação”- afirmação de Gerd Leonhard -, apresenta algumas reflexões deste Futurista, constantes da sua obra “Tecnologia Versus Humanidade”.

Quando as questões relacionadas com as novas tecnologias estão na ordem do dia pelas piores razões, parece-nos do maior interesse alargar o nossa tomada de consciência do que pode ser o impacto de uma visão libertária, a qual atribui à tecnologia a capacidade para superar todas as limitações da humanidade.

São fortes as imagens a que Gerd recorre para ilustrar o risco do culto da eficiência, esquecendo a condição de humanidade: os gigantes da tecnologia detém um poder comparável ao das ”armas mais poderosas alguma vez inventadas, e, como tal, são necessários tratados de não proliferação”.

A sua opinião é que, face à dificuldade de controlar, tanto a inteligência artificial como a manipulação genética, será necessário um incidente grave para chegar à regulação.

Oxalá o futuro não confirme estas previsões, mas será um mito afirmar a possibilidade do poder político para antecipar e controlar as nefastas tendências de uma tecnologia sem freio? Não estará a ser subestimada a intervenção das políticas tecnológicas?

Por vezes, os analistas reduzem o campo das previsões á questão, sem dúvida importante, do impacto das novas tecnologias na redução do emprego, discordando, aliás, largamente, na dimensão deste fenómeno.

O que recentemente foi conhecido sobre os riscos de acesso e manipulação de dados do Facebook, veio tornar ainda mais clara a necessidade de regulação neste e noutros domínios da tecnologia.

Um boa síntese das questões a que é preciso dar atenção para formular uma política tecnológica encontra-se num artigo de Michael J.Buskin, publicado em Project Syndicate de 25 de abril, com o título “ The Future of Tech Policy”.

A 1ª questão é a da privacidade, sendo certo que o Regulamento da U.E. para Protecção de Dados, a iniciar em breve a sua vigência, não oferece qualquer protecção a não europeus, para além de insuficientes garantias, por exemplo, no direito a apagarem os seus dados.

A 2ª questão é o poder de mercado monopolista/oligopolista das empresas tecnológicas, as quais tiveram a protecção de “ indústrias nascentes” e assim se livraram de regulação e de impostos, actuando como barreira a novas empresas ou produtos e, reforçando a sua dimensão por meio de concentrações ou fusões, desafiam o poder de governos, mesmo os mais poderosos.
A 3ª questão refere-se ao controlo da informação, pois a facilidade de aceder a plataformas online, relega para segundo plano outras fontes que merecem maior credibilidade.

A 4ª questão está relacionada com a concentração de riqueza nas mãos dos gigantes da tecnologia, em contraste com décadas de muito lento crescimento de salários (excepto alguns trabalhadores no sector tecnológico), o que está a criar uma violenta reacção política.

Finalmente, a 5ª questão afigura-se ser da maior importância pois trata-se do domínio da segurança nacional e dos interesses económicos nacionais: a possibilidade de um ciber ataque está ao alcance dos vários gigantes da tecnologia.

Todas estas questões irão influenciar o futuro da política tecnológica e, dessa forma, as inovações futuras e os seus benefícios para a sociedade.

Ignorar as consequências de deixar ao livre arbítrio de meia dúzia de poderosos, que estão primordialmente interessados nos seus lucros, o caminho da evolução tecnológica, parece muito próximo de um crime contra a humanidade.

E há tantas carências verdadeiras que a tecnologia podia resolver!

Se queremos que as gerações futuras vivam em paz, há que não subestimar nenhuma das questões suscitadas pelo avanço tecnológico, por muito difíceis que sejam as soluções.

Indispensável é criar as bases de uma outra forma de pensar o problema, numa sociedade em que as pessoas facilmente se deixam aprisionar pelos encantos da última novidade tecnológica.

O apelo de Gerd para que seja dado o lugar central à dimensão ética na utilização da tecnologia, não substituindo a consciência pela conveniência, talvez possa evitar a catástrofe a que ele se refere.

23 abril 2018

O que deveríamos saber quando falamos de descentralização

A descentralização tem sido objeto de notícias recentes que surgem na sequência da celebração de um acordo entre o partido do governo e o principal partido da oposição. São notícias que só podem ser consideradas bem-vindas, não tanto por causa do acordo, mas porque ele cria oportunidade para se aprofundar o conteúdo e a vivência da descentralização.
Esse aprofundamento só poderá acontecer se o ponto de partida tiver uma fundamentação com bases rigorosas e seguras. De outro modo, os processos de descentralização que se pretende implementar podem servir para enfeitar ativismos e vaidades, mas não passarão disso. Ora, com o que já se conhece parece que nem tudo o que deveria ter sido acautelado, o foi. Vejamos porquê.
Importa revisitar os fundamentos e deles retirar as conclusões que encerram. A âncora principal da descentralização reside na convicção generalizada de que os processos de tomada de decisões são mais eficientes (menores custos para realizar os mesmos objetivos) e geram situações de melhor bem-estar, se se desenvolverem na “proximidade” dos cidadãos. Partindo deste pressuposto foi enunciado o princípio da subsidiariedade que é, habitualmente, apresentado como sendo fundador da descentralização. De que se trata?
O princípio da subsidiariedade diz uma coisa muito simples: numa hierarquia de tomada de decisões nenhuma deve ser tomada a um nível superior se o pode ser melhor a um nível inferior. Se assim for, maximizar-se-á a proximidade aos cidadãos, a eficiência e o bem-estar.
Só que o que é aparentemente simples está rodeado de numerosas indeterminações. Elas são, no entanto, suscetíveis de ser superadas. Para o conseguirmos muito lucraríamos se, apesar das nossas especificidades, fossemos capazes de estar atentos às experiências sedimentadas de muitos outros países, nomeadamente europeus.
As indeterminações andam à volta do que é que é um “nível” e do que é ser “melhor”. Um nível é determinado por uma escala espacial. Por isso, o nível municipal é inferior ao regional e este ao nacional. A avaliação do que é ser melhor não tem conteúdo completamente objetivo. Depende dos consensos que os cidadãos, em cada comunidade, obtiverem em torno de objetivos.
Daqui decorre que se uma decisão tomada a um nível inferior o não for de modo eficiente a esse nível e o puder ser a um nível superior (regional, por ex.) então ela estará mais próxima dos cidadãos se for tomada a nível regional e não a nível municipal. Como se vê, a noção de proximidade, contrariamente ao que é vulgarmente entendido não tem, apenas, um conteúdo de distância física, mas também, o de eficiência.
Há um critério que permite determinar o nível (a escala) adequado para a tomada de decisões. Esse critério é o da ”área de influência” das decisões tomadas. Se essa área for superior à de um município então ela não pode ser tomada de forma eficiente a esse nível e deverá ser tomada por um nível superior. Insistir, a todo o transe, na municipalização das decisões como forma de concretizar a descentralização não conduz a outra coisa que não seja ao desperdício de recursos.
Bem sei que todos os processos de mudança institucional, como o é este, devem ser implementados de forma gradual, mas isso não significa que, por ex., em primeiro lugar se deva organizar o nível municipal e depois o regional. Os processos de organização, num e noutro, são complementares e mais uma vez se pode dizer que realizar um sem o outro se traduz em desperdício de recursos. Não é por nele menos se falar que o desperdício deixa de existir.
Todos os indicadores nos parecem dizer que estamos a ficar mais ricos e mesmo assim muitos apelam à necessidade de reformas estruturais só que se esquecem de dizer que as reformas estruturais que invocam são as suas, que podem ser diversas das que são exigidas para se atingirem objetivos diferentes dos seus. Bom seria que a reforma dos processos espaciais de tomada de decisões, incluindo os do nível regional, fosse rapidamente considerado como reforma estrutural urgente.

22 abril 2018

Uma economia em choque com a vida

A mais pequena e serena reflexão permite-nos concluir que a vida, recheada como é de múltiplas circunstâncias e episódios os mais diversos, naturalmente uns por vezes tristes ou mesmo dolorosos e outros jubilosos quando não até gloriosos, reveste-se de uma dignidade não comparável a qualquer outra faceta da realidade. Constitui por isso o valor supremo para qualquer ser humano. Li ou ouvi algures, e subscrevo, que “a vida é a causa de todas as causas”.

Acontece que, não obstante as comodidades proporcionadas pelas inovações científicas e tecnológicas, o mundo hoje, para a esmagadora maioria das populações, não é um lugar seguro, confortável e promissor. Pelo contrário, as condições de vida de muitos seres humanos, os recorrentes conflitos sociais e políticos e a amplitude e persistência dos fenómenos climáticos a que vimos assistindo geram um sentimento de insegurança e desconforto e fazem prever, para muitos, um nefasto e cinzento futuro.

Tenho para mim que, de entre as causas que nos conduziram à actual situação, avultam duas enormes imprudências, fruto da acção de empresas e decisores políticos irresponsáveis e do desconhecimento ou passividade de boa parte das populações.

A primeira diz respeito à instalação e funcionamento de centrais nucleares para produção de energia eléctrica, desconhecendo-se já nessa altura como ainda hoje ( ! ) qualquer solução para o destino seguro a dar aos resíduos altamente tóxicos e cancerígenos delas provenientes. Um décimo milionésimo de grama de plutónio (cuja radioactividade dura pelo menos 25 mil anos !) basta para provocar um cancro do pulmão e um reactor de 1000 MW produz cerca de 300 Kg de plutónio por ano. Isto, sem contar com a contaminação radioactiva das águas, dos solos e por consequência das cadeias alimentares que terminam no homem. Já para não falar da eventualidade de acidentes atribuíveis a falhas humanas ou provocados por catástrofes naturais cujos funestos efeitos infelizmente já foram demonstrados várias vezes, nomeadamente em Three Mile Island, Chernobyl ou Fukushima.

A segunda destas imprudências tem a ver com o assalto desenfreado aos recursos naturais do planeta a um ritmo de delapidação 1,6 vezes superior ao da sua capacidade de regeneração. Os seus efeitos são de todos conhecidos : esgotamento de muitos desses recursos naturais, perda acentuada da biodiversidade, poluição atmosférica ( responsável por 11,6% das mortes no mundo), águas e solos contaminados, escassez de água potável em várias regiões do globo, fenómenos climáticos extremos, de entre os quais temperaturas cada vez menos suportáveis pelos seres humanos, inevitáveis consequências na saúde das pessoas, animais e plantas, numa palavra, no planeta, nossa casa comum.

Estamos a ser actores de uma economia em choque frontal com as formas de vida na Terra. Vários cientistas do clima, em carta publicada a 11/01/2016 no jornal The Independent anunciam que o Acordo de Paris não vai evitar uma mudança climática devastadora à qual a nossa civilização não vai sobreviver! Não estamos nós a negar o direito à vida e saúde das gerações futuras ?