12 outubro 2017

O Indicador Europeu de Igualdade de Género

O Instituto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE, na sigla inglesa) acaba de apresentar o indicador compósito anual que mede, para os diferentes Estados Membros (EM), a situação relativa de mulheres e homens face a oito importantes domínios da vida social e económica. O Indicador de Igualdade de Género, assim se chama, mede as diferenças de género nos domínios do trabalho, rendimento, conhecimento, usos do tempo, exercício do poder e saúde e monitoriza ainda os progressos verificados quanto a violência de género e desigualdade múltipla (http://eige.europa.eu/gender-equality-index).

Como sucede com todos os indicadores compósitos, também a este se dirigem várias críticas. Antes de mais, a da possibilidade efectiva de medir a (des)igualdade de género, tema de tão grande complexidade dadas as múltiplas dimensões envolvidas; algumas das quais, estreitamente associadas a domínios como os da Psicologia ou da Cultura, prestando-se, efectivamente, muito pouco à quantificação. Por outro lado, coloca-se a questão de saber que peso atribuir aos diferentes subdomínios envolvidos, 31 ao todo, se o mesmo ou, pelo contrário, ponderadores de diferente magnitude. Há quem critique também a possibilidade de estabelecer uma medida comum para as realidades tão diferentes dos 28 EM em presença.


Cientes de toda esta argumentação, consideramos que mesmo assim é importante ter em conta este Indicador e o correspondente relatório já que em termos das tendências médias ele se afigura muito significativo. O panorama da União Europeia (UE) neste domínio é um clássico: muito maior igualdade de género nos países nórdicos, seguindo-se a europa central e, por fim, os estados bálticos, países do leste europeu e… Portugal:




Fonte: EIGE (2017)                                                              


Apesar dos progressos verificados no nosso País quanto a este Indicador, o certo é que temos ainda um grande caminho a percorrer. Com um valor de 0,56, contra 0,662 na média da UE (e 0,83 na Suécia), relativamente a 2015, é nos domínios do exercício do poder, dos usos do tempo e do conhecimento que se verificam entre nós as mais acentuadas diferenças de género: nas assembleias regionais e nos gabinetes ministeriais o peso relativo dos homens é bastante superior a 70% e mesmo na Assembleia da República se está ainda bastante longe da paridade já que só cerca de 33% dos deputados eram mulheres, em 2015. 

O uso do tempo mostra-se igualmente bastante mais desfavorável às mulheres, sobretudo no que tem a ver com o apoio a crianças, idosos e incapacitados e, muito especialmente, no que respeita às chamadas tarefas domésticas[1]. Quanto aos dois sub indicadores relativos ao conhecimento – as percentagens de diplomados pelo ensino superior e de população com 15 ou mais anos em programas de educação formal ou não formal – as posições relativas apresentam-se simétricas, com o primeiro indicador a revelar uma superioridade relativa das mulheres e o inverso no segundo.

Mas mesmo nos domínios em que o Indicador revela níveis mais elevados de paridade, os da saúde e do trabalho, a posição relativa do nosso País se destaca face à média da EU. A respeito daquele segundo domínio, cujos sub indicadores são a taxa de emprego em equivalente a tempo inteiro (ETI) e a expectativa quanto à duração da vida activa, constatam-se resultados dignos de nota:
- em ambos os casos, e para os dois sexos, os valores percentuais em Portugal são superiores aos da média da EU;
-o gap de género é mais elevado no primeiro sub indicador, cerca de 10 p.p. a mais nos homens do que nas mulheres, entre nós, e aproximadamente 17% no mesmo sentido na média da EU;
- a expectativa de duração da vida activa é superior em Portugal – mais 3% de mulheres e mais 0,5% de homens com mais de 15 anos prevê trabalhar durante toda a sua vida activa, em Portugal, face à expectativa correspondente na EU.


Como pode ver-se, são múltiplas as direcções e longo ainda o caminho a percorrer pelas políticas públicas e, especialmente, pelos homens e pelas mulheres no sentido da paridade de género.




[1] Para um maior aprofundamento deste aspecto, ver  H. Perista e outros (2016), Os Usos do Tempo de Homens e de Mulheres em Portugal, CESIS & CITE, Lisboa, disponível em http://www.cesis.org/admin/modulo_news/ficheiros_noticias/20170201142706-1inut_livro_digital_final.pdf









10 outubro 2017

O “comportamento” do prémio Nobel da Economia

 
Foi ontem (09-10-17) conhecido o nome do vencedor do Prémio Nobel da Economia para 2017. Trata-se de Richard Thaler, prestigioso professor de economia da “Chicago Booth School of Business”. Ainda ontem e durante o dia de hoje os media foram abundantes na publicação de comentários sobre o conteúdo dos seus trabalhos e sobre a personalidade do vencedor.
Infelizmente, os comentários raramente são capazes de sublinhar em que consiste a sua verdadeira contribuição para o avanço da ciência económica e, mais importante do que isso, para a demonstração de que a economia só se torna verdadeira ciência, na medida em que se aproximar da vida real das pessoas, nomeadamente, através da endogeneização do comportamento dessas pessoas nas explicações sobre o funcionamento da economia.
Tem-se vindo a sublinhar que a mais importante contribuição de Thaler, na sua economia dos comportamentos ou economia comportamental, tem sido a relevância que atribui às “decisões irracionais”. Ora, como seres racionais que somos não podemos deixar de nos interrogarmos como é que um professor brilhante, capaz de ganhar um prémio Nobel quer fazer de nós seres irracionais. Há qualquer coisa que não bate certo!
Vamos lá procurar saber onde é que está a marosca, porque a há. De fato as decisões que são apelidadas de irracionais, são perfeitamente racionais. Vejamos porquê.
Não é a primeira vez que aqui se sublinha a irracionalidade da chamada economia racional. Ao pretender fazer da economia uma ciência semelhante às ciências exatas, que têm como pressuposto que as mesmas causas produzem, sempre, os mesmos efeitos, um conjunto vasto de economistas (ditos liberais) criou uma maquete através da qual pretendiam e pretendem ver representado o funcionamento da economia. Segundo essa maquete, na economia existem, como agentes, produtores e consumidores, que têm comportamentos tipificados: os consumidores ao consumirem fazem-no maximizando as  suas utilidades; os produtores só encontram razão para produzirem se por essa via maximizarem os seus lucros. Os consumidores relacionam-se com os produtores, através do mercado e no comportamento do mercado não são admissíveis quaisquer outros agentes que não sejam os consumidores e produtores. Do Estado não deve existir qualquer sinal, porque se existir ele apenas pode ter como consequência a diminuição da satisfação dos agentes.
Ao maximizarem as suas utilidades e os seus lucros, consumidores e produtores, adotam comportamentos racionais. Quem assim não fizer não é um ser racional, não é um homo economicus.
É verdade que a maquete simula bem o comportamento dos agentes em determinadas, raras, situações. Mas é muito mais verdade que a maioria dos agentes se encontra, em muitas circunstâncias, perante situações em que a sua motivação não é, ou não é só, a utilidade e o lucro. Isto é, não se comportam como desejaria a maquete. São seres irracionais!
É aqui que Thaler vem colocar a verdadeira questão. Quem é que deve ser considerado como irracional? Quem não se comporta segundo as regras da maquete, que foram consideradas como sendo racionais, ou quem segue modelos de decisão que, embora possam ter em conta as regras do mercado as pondera com outras considerações que têm em conta as emoções, o cumprimento de regras de justiça, as intuições, o conhecimento adquirido através de experiências e decisões do passado, etc.
Naturalmente que tem que ser considerado possuir comportamentos irracionais, quem abandona os ditames da sua consciência e da sua história para dizer que nos devemos comportar segundo as regras da maquete. A racionalidade está na valorização do comportamento humano como ser inteligente, emocional, dotado de memória e que vive num mundo em que os outros seres humanos fazem parte das suas relações, que podem ser umas vezes de caráter competitivo, outras vezes de caráter cooperativo ou solidário.
É racional quem é dito irracional; é irracional quem antes subiu aos altares de uma pretensa racionalidade.
Por isso são tão importantes os contributos com que Richard Thaler nos tem beneficiado.
Ao tomar conhecimento da atribuição do prémio Nobel, perguntou-lhe um jornalista: e o Sr. o que vai fazer com os cerca de um milhão de euros que agora lhe foram atribuídos? A sua resposta foi de mestre e saiu de rajada: naturalmente, vou tomar decisões irracionais!
São irracionais, porque a maioria das suas decisões vão, certamente, contrariar as decisões racionais da maquete.

 

09 outubro 2017

Pensar o Futuro

Pensar o futuro contempla uma dupla preocupação: promover o entendimento em torno dos objectivos a alcançar num horizonte temporal alargado e contribuir para a construção de uma visão prospectiva, no que se refere à identificação de potencialidades e riscos decorrentes de mudanças demográficas, tecnológicas, económico-financeiras e outras.
 
Reconhecemos o valor e a urgência de estratégias de desenvolvimento que vão para além dos ciclos eleitorais e sirvam de guia aos governos e demais órgãos políticos, agentes económicos, organizações da sociedade civil e dos próprios cidadãos nas suas respectivas tomadas de decisão no presente e na avaliação dos seus efeitos futuros.
 
Considerando o actual contexto de globalização e financeirização das economias, bem como o quadro de incerteza quanto a possíveis impactos de ocorrências em múltiplos domínios da vida colectiva (aquecimento global e calamidades naturais, conflitos bélicos mais ou menos generalizados, desregulação financeira e novas crises no sistema, aceleração de inovações tecnológicas e sua incidência na repartição da riqueza e do rendimento, no trabalho humano e no emprego, etc.) entendemos que, em vez de invocar a incerteza para justificar que se prossiga numa navegação à vista, mais se torna imperativo dispor de uma estratégia nacional suficientemente flexível, mas robusta, que vise o desenvolvimento a prazo e dê coerência às decisões mais imediatas.
 
Assim começa a síntese com que o GES encerra o projecto Economia e Sociedade – Pensar o futuro. O texto na íntegra encontra-se aqui.

03 outubro 2017

O exemplo da Igreja católica em favor do clima

O jornal The Guardian de hoje noticiava, com relevo, o resultado da acção empreendida conjuntamente por mais de 40 instituições católicas no sentido do desinvestimento em energias fósseis e reinvestimento em energias renováveis, considerando esta acção como um sinal muito positivo a favor do ambiente em geral e, designadamente, em favor das populações mais pobres, as maiores vítimas, actuais e potenciais, da mudança climática em curso.

Com esta acção concreta, instituições de várias dioceses da Igreja Católica, envolvendo muitos milhares de actores sociais de diversos países, respondem ao apelo do Papa Francisco expresso em várias ocasiões e de modo mais solene na encíclica Laudato Si’publicada em Abril 2015. 

Cabe sublinhar que este não é um acto isolado mas antes exprime um compromisso de carácter mundial animado por uma plataforma intitulada Global Catholic Climate Movement.

O artigo de que extraímos esta informação pode consultar-se aqui


29 setembro 2017

Economia e Sociedade – Pensar o Futuro
O desenvolvimento e o território

Quando se reflete ou se intervém no desenvolvimento, com frequência, ele é tomado como podendo acontecer, sem que o território seja tido em conta. Um tal pressuposto tem consequências gravosas sobre o ritmo de desenvolvimento pretendido e sobre a equidade alcançada na repartição dos seus resultados. Acontece que não pode haver desenvolvimento sem território.

Assim começa o texto da autoria do Professor Manuel Brandão Alves elaborado no âmbito do projecto Economia e Sociedade – Pensar o futuro.

A Ciência económica foi em parte responsável pela subestimação do território na concepção e nas políticas do desenvolvimento, na medida em que a teoria económica dominante nesta área assumiu como foco o crescimento económico, no entendimento de que dele decorreriam desejáveis aumentos de bem-estar, progressivo acesso da população à satisfação das suas necessidades, optimização do emprego dos recursos.

Com esta reflexão procura-se fundamentar a necessidade de superar uma lacuna a que induziu a própria Ciência económica, mas vai-se mais longe: desocultam-se problemas e abrem-se perspectivas para o desenvolvimento em Portugal.

(…) procuramos fazer uma análise da situação com que, em Portugal, nos confrontamos, identificar constrangimentos, problemas e potencialidades e enunciar perspetivas de futuro, na relação entre território e desenvolvimento. Antes, convém que fixemos o que entendemos por desenvolvimento e por território.

O texto na íntegra encontra-se aqui.

19 setembro 2017

Para estar mais próximos do que é verdadeiramente importante

O Core é um projeto de professores de economia, de um numeroso grupo de países, que tomou a seu cargo a tarefa de introduzir alterações no ensino tradicional da economia, de modo a que professores e alunos possam dedicar o seu tempo a refletir e apresentar soluções para a resolução dos verdadeiros problemas do nosso tempo.
O projeto teve como motivação principal  a elaboração de um novo manual do ensino da economia, “The Economy”, que fosse capaz de romper com a ortodoxia hoje prevalecente que, em lugar de dar resposta às verdadeiras preocupações das pessoas, se deleita a ensinar a economia através de raciocínios e modelos abstratos, enquanto a situação dos países, das pessoas e da conservação da natureza fica vez mais deteriorada, bloqueada e desequilibrada.
No quadro do desenvolvimento deste projeto os seus autores entenderam promover um inquérito junto de alunos do primeiro ano, por ocasião da primeira aula que tiveram na universidade. A universidade escolhida foi a Universidade de Humboldt, localizada em Berlim, e uma das universidades europeias mais prestigiadas, que só à sua conta tem entre os seus professores mais de 40 prémios Nobel.
O inquérito consistiu em perguntar aos alunos qual é o problema a que, do seu ponto de vista, os economistas devem dar respostas. A partir das respostas dadas, os promotores do inquérito elaboraram uma nuvem (gráfico abaixo) em que as respostas foram reunidas de acordo com as palavras citadas. Na nuvem, aos caracteres das palavras citadas pelos alunos foi atribuído um tamanho proporcional ao número de vezes que era referida.
Quando não poucas vezes se pensa que os alunos, em particular os do 1º ano, estão na sala de aula para absorverem o que lhes dizem os professores e não para darem opiniões lúcidas, o resultado é quase deslumbrante.
Vale a pena mergulhar na nuvem e pensar no que tem de mudar nas nossas prioridades.

 
 

18 setembro 2017

Falta-nos uma política integrada de combate à pobreza

Em entrevista divulgada no passado dia 16, o Professor Carlos Farinha (ISEG/UL) vem, mais uma vez, chamar a atenção para a persistência em Portugal da elevada incidência pobreza nas suas diversas expressões, bem como denunciar as suas causas estruturais.

Defende, tal como em escritos e múltiplas outras intervenções orais, a urgência de uma política integrada e suficientemente robusta de erradicação da pobreza no nosso País.

 Não podemos estar mais de acordo, como temos vindo a referir em vários posts publicados neste blogue.
 
A entrevista na íntegra encontra-se aqui