A aprovação pelos países membros das Nações Unidas de um
novo plano de acção ( ODS) para
erradicar a pobreza “ nas sua múltiplas manifestações
e em todo o lado” até 2030, foi justamente saudada como manifestação da
consciência mundial de que é urgente actuar, de forma programada, com vista a
atingir aquele objectivo.
Um sinal de esperança, sem dúvida, que a
todos convoca para que, como declarou o Papa Francisco na ONU “não nos limitemos ao exercício burocrático de
redigir uma longa lista de bons propósitos (metas, objectivos, indicadores
estatísticos) ou a julgar que uma solução teórica, única e apriorística, dará
resposta a todos os desafios”.
Disse ainda o Papa que, para que os homens e
mulheres se libertem da pobreza é necessário permitir-lhes que sejam actores do
seu próprio destino e denunciou como nefasta a irresponsável má gestão da
economia mundial, guiada unicamente pela ambição do lucro e do poder.
Á luz destas considerações, é necessário que
olhemos a pobreza não como uma doença a erradicar com a prescrição de remédios
a tomar pelos pobres, mas, antes, avaliar a forma como tem sido orientada a
economia mundial e quem dela tem
beneficiado. Muitos têm denunciado as crescentes desigualdades na apropriação dos
ganhos do crescimento , sendo ilustrativo o facto de, nos últimos anos, 95% desse
ganho ter sido apropriado pelos 40% mais ricos.
Se é verdade que na vigência do anterior programa
das Nações Unidas, os Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (ODM), a pobreza
global, com referência à situação em 1990, foi reduzida a metade, as
disparidades inter e intra países são ainda muito grandes e não param de crescer.
Não se pode atribuir a persistência da
pobreza mundial ao fraco crescimento do PIB: desde 1990 este cresceu 271%, e,
apesar disso, o número de pessoas que vivem com menos de 5 dólares por dia e o
número de pessoas atingidas pela fome aumentou de 10% e 9%, respectivamente.
Acelerar o crescimento do PIB, para além de
contrariar objectivos ambientais, não é a forma de combater a pobreza.
Neste sentido é muito pertinente a análise
desenvolvida na World Economic Review por David Woodward, que entende ser
irrealista a erradicação da pobreza na vigência dos ODS. Com efeito, ele estima
que a erradicação não ocorrerá senão dentro de 100 anos, considerando o limiar de 1,25 dólares por dia, e apenas dentro de 200 anos se estiver em causa o limiar de
5 dólares por dia, partindo de pressupostos que considera optimistas.
Transcrevemos parcialmente as conclusões
deste trabalho:
“ O único caminho viável para erradicar a
pobreza partindo de uma definição correcta e dentro de um calendário mínimamente
razoável, é melhorar a relação entre o crescimento económico global e a pobreza
e fazer isto muito mais depressa e mais eficazmente do que o alcançado ao longo
dos últimos vinte anos.
Tal significa deslocar a nossa atenção do
crescimento económico global em si mesmo para a melhoria da distribuição dos
benefícios da produção global e do consumo”.
E ainda, “ se queremos erradicar a pobreza no
tempo de vida dos nossos filhos ou netos ... parece haver poucas alternativas senão
ir para além de soluções cumulativas, tais como o apoio ao desenvolvimento e alívio
da dívida, para reapreciar, fundamentalmente, a nossa visão global sobre o
desenvolvimento e a economia global, e proceder às alterações que possam ser
necessárias para atingir aquele objectivo”.
O mesmo caminho de exigência e rigor pode ler-se
num artigo de Zoe Williams, publicado no The Guardian de 19 de Outubro com o
sugestivo título “Poverty goals? No, it’s extreme wealth we should be targeting”.
Escreve a autora que “ se o problema que se
coloca à economia do Reino Unido tivesse sido identificado como sendo o dos
impactos desestabilizadores da riqueza extrema, quanto tempo teria decorrido até
que os ricos tivessem sido sujeitos a escrutínio?”
Refere ainda a atenção que não tem sido prestada a certas
políticas (acordos comerciais injustos, apropriação de terras, relações de
dívida estrutural, privatizações, evasão fiscal), assim se alimentando a ideia de que a pobreza não é culpa de
ninguém, enquanto que, na realidade, “ a pobreza não é um germe ou um vírus que
aparece naturalmente; ela é antropológicamente criada através da apropriação da
riqueza”.
E conclui: “Desde a aurora da riqueza,
levantar questões sobre os ricos tem sido retratado como inveja; levantar
questões sobre os pobres é considerado útil e digno de simpatia, moral e
dirigido à solução do problema. Mas nenhum problema pode ser resolvido enquanto
as instituições políticas não reconheçam que a pobreza tem uma causa”.