A construção permanente de um “mundo melhor” é no que com realismo, confiança e esperança somos chamados a empenhar-nos. É, também, este empenho que nos leva a, neste momento grave da vida do país, vir explicitar a nossa denúncia e o nosso compromisso. Como em anteriores tomadas de posição, movem-nos preocupações éticas e de responsabilidade cívica pela construção de uma sociedade mais justa, mais inclusiva, mais solidária e onde o ser humano seja o primeiro sujeito de um desenvolvimento sustentável.
25 abril 2014
Por uma economia justa e inclusiva
ao serviço da Vida
22 abril 2014
Custo mínimo, Lucro máximo, Emprego esmola
Pela
enésima vez o FMI apresenta, agora no relatório da 11ª avaliação do chamado
“ajustamento”, as suas propostas (que - malgré lui – não chegam a imposições,
pois somos apesar de tudo país soberano) de redução de salários e de
facilitação ainda maior de despedimentos, a que chama flexibilização das leis
laborais.
Custo mínimo, lucro máximo, emprego esmola é o
título deste “post”. Não são já esses totalmente os resultados, mas representam
os objectivos procurados pelos que propõem, apoiam e executam políticas
alinhadas com tais propostas do FMI e dos restantes elementos da Troika. Claro,
muitos não terão coragem de os enunciar publicamente, especialmente o último, a
que chamei “emprego esmola” para simbolizar a submissão que a situação laboral
precária tende a causar. Mas esses mesmos são diligentes e até entusiastas na
aplicação das políticas “troikianas”, pois são os aliados internos dos “nossos
credores”, como dizem com veneração.
Ainda não
estamos no “custo mínimo”, mas os custos do trabalho têm vindo a descer -
segundo o economista Eugénio Rosa, de 2010 a 2013, diminuíram 13,1% - e a
percentagem das remunerações no PIB diminuiu de 50,2% para 47%, segundo o mesmo
economista. E hoje em dia mais de 10% dos trabalhadores (580000) continuam
pobres (com rendimentos inferiores a 419 euros), isto é, o magro salário que
auferem não chega para os fazer sair da pobreza como, há pouco, um estudo do
INE divulgava.
Na discussão que este estudo levantou, a propósito das desigualdades e do salário mínimo, veio o primeiro-ministro (certamente pressionado por um ambiente já eleitoral) dizer que estava disponível para discutir um aumento do salário mínimo. Como se tal disponibilidade fosse uma benesse ou mesmo um rebate de consciência social, quando afinal do que se trata é de cumprir o que já foi acordado em 2006 em Concertação Social. Aliás, os 500 euros que deveriam ter sido aplicados a partir de 2011, seriam hoje mais de 550, se desde 1974 o salário mínimo tivesse sido sempre actualizado.
Na discussão que este estudo levantou, a propósito das desigualdades e do salário mínimo, veio o primeiro-ministro (certamente pressionado por um ambiente já eleitoral) dizer que estava disponível para discutir um aumento do salário mínimo. Como se tal disponibilidade fosse uma benesse ou mesmo um rebate de consciência social, quando afinal do que se trata é de cumprir o que já foi acordado em 2006 em Concertação Social. Aliás, os 500 euros que deveriam ter sido aplicados a partir de 2011, seriam hoje mais de 550, se desde 1974 o salário mínimo tivesse sido sempre actualizado.
A descida
da parte do trabalho no rendimento nacional, acima referida, significa,
juntamente com a política fiscal seguida, que os rendimentos de capital e de
propriedade têm subido. Não é ainda o ”lucro máximo”, mas como também diz
Eugénio Rosa, “Os mais ricos (muito menos de 1% da população) conseguiram,
apesar da crise, reconstituir as suas fortunas”.
Já é
difícil ter paciência para a insistência do FMI e do seu representante Subir
Lall na facilitação ainda maior dos despedimentos, como factor de criação de
emprego. O que o FMI queria era despedimentos sem justa causa, o mesmo que o
primeiro-ministro, mesmo disfarçados de despedimentos por “razões atendíveis”(
lembram-se?). Mas há uma coisa que se chama Constituição da República
Portuguesa…
Não se
está, porém, longe do emprego esmola, pois a precariedade é cada vez mais
erigida em norma informal. Ou seja, não se está longe de que conseguir ter um
trabalho é ter a sorte de aparecer alguém que dá essa esmola, em vez de
significar o direito de trabalhar e, com isso, sentir que se pode ter uma vida
digna.
14 abril 2014
As agências de "rating" também votam
A realidade é
o que é e não vale a pena querer contrariá-la!
Esta é uma
frase com que nos cruzamos, com frequência, e que é dita por quem é reputado
possuir bom senso e sabedoria. Mas será mesmo, sempre, assim?
A este
propósito, tenho, agora, presente um livro que li no fim do ano passado e que
se intitulava “Não acredite em tudo o que pensa”. O título parece uma provocação vinda de
alguém que se diria que não está “regulando bem da engrenagem”. Na verdade não
é assim. A leitura dos textos que o integram mostra, com clara evidência que,
em consequência, do conhecimento acumulado ao longo do tempo, dos valores
culturais dominantes, do ouvi dizer, dos interesses materiais de cada um, etc.,
há muitas coisas que pensamos ser verdade mas que, efetivamente, o não são. Desmontadas
as construções do “senso comum” verificamos que, de fato, aquilo em que
andávamos a pensar como sendo inquestionável, nem dá para acreditar.
Vem isto a
propósito da incontornável questão que, sempre, nos devemos colocar: se a
realidade é o que é, como é que conhecemos a realidade?
A realidade,
dirão a maioria, é aquilo que vemos com os nossos olhos.
Se ficássemos
só por aqui, não teríamos resposta para a questão que se colocam dois observadores
de, perante o mesmo fenómeno observado, não verem exatamente a mesma coisa, ou
não o descreverem da mesma forma.
É que a
realidade que vemos é o resultado do que vêm os olhos e do que é visto pelo que
está atrás dos olhos, isto é, a inteligência, a capacidade de pensar, a
cultura, o conhecimento, os interesses, os valores, etc.
E o que é que
nos têm dito sobre o que é a realidade do país nos dias de hoje? O Governo e
seus apoiantes têm vindo a afirmar, e cada vez com mais insistência que, a
situação do país está melhor porque, o PIB tem vindo a crescer desde há vários
trimestres sucessivos (embora a taxa de crescimento do PIB anual continue a ser
negativa), as exportações não cessam de aumentar, a taxa de desemprego diminui,
o saldo das contas do Estado desce-, a taxa de juro da dívida a longo prazo continua
a decrescer, etc.
Mas há quem
veja a realidade de outra forma, dizendo que a situação do país não pode ser
avaliada, apenas, através daqueles indicadores; que há ter, igualmente em conta
a evolução de outras variáveis, por ex.: a taxa de risco de pobreza, a
diminuição de pensões e reformas, a persistente ausência de investimento, a
descapitalização das instituições públicas, a destruição do Estado Social, a
emigração dos recursos humanos mais qualificados, a falta de investimento e
financiamento nas Universidades e Laboratórios de Estado, etc., etc.
Quem tem
razão? Mais do que quem tem razão importa dizer, agora, que uma mesma realidade
pode ter leituras diferentes e que, por isso, é uma grande falta de perspicácia
continuar a dizer que “não há outro caminho”.
Entretanto estamos
em época pré-eleitoral e surge uma Agência de rating, a Fitch, a declarar que considera existir uma tendência positiva
para que se possa vir a ser considerada uma avaliação que considere a saída de
Portugal da situação de “lixo”. Naturalmente que a ninguém surpreenderá que a “realidade”
que a Agência considera é a que acima foi descrita em primeiro lugar.
Como poderá
ser interpretada a necessidade de, neste momento, a Agência vir a fazer esta
tomada de posição quando, desde há vários meses e contrariamente ao que
aconteceu no passado, já não víamos as agências de rating vir a terreiro?
Recordemos,
brevemente, qual era o comportamento das agências de rating, em relação à situação portuguesa, há acerca de 3 anos atrás.
Com a intensidade de um bombardeamento em massa, as três agências de rating, em geral consideradas como as
mais relevantes, declaravam, semana sim, semana não, a deterioração contínua do
rating da República, sem que nada
parecesse que o pudesse justificar. A esse propósito, recorde-se que um
conjunto de professores universitários apresentou uma denúncia na
Procuradoria-Geral da República, com vista a que esta pudesse averiguar a
possibilidade da existência de indícios criminais (ver aqui
e aqui).
Colocava-se a
questão de saber como é que poderia ser interpretada aquela deterioração
acelerada do rating sem que para isso
houvesse justificação compreensível. Nessa altura, neste blogue, vieram a ser
publicados vários textos que demonstravam qual era o significado da
deterioração.
Como se sabe,
em 2008, tinha-se desencadeado uma crise financeira de enormes proporções que
deixaram em situação de enorme precariedade todo o mundo financeiro. Tendo-se
considerado que este era, também, o principal responsável do rebentamento da
bomba, logo se pensou que se tornava indispensável proceder à regulação do seu
comportamento.
E se bem se
pensou pior se fez. O ladrão, em lugar de ser preso, transformou-se em
carcereiro, como já o justifiquei num outro post. É que quem poderia fazer a
regulação (os países mais poderosos) era, também, quem tinha interesse em
recapitalizar as suas instituições financeiras ou em robustecer quem detinha
dívida tóxica”, isto é, em não regular. O que fizeram?
Mobilizaram
toda a sua artilharia institucional (incluindo as agências de rating) com vista a transferir o ónus da
desordem financeira para os países que menor capacidade possuíam para se
defender dos ataques especulativos contra a sua dívida. E assim Portugal
iniciou o percurso do deserto a que estamos assistindo, com uma violência,
raramente antes conhecida, de destruição ou extorsão dos seus recursos e da sua
infraestrutura institucional.
Esta
estratégia encontrou em Portugal os “aliados” de que necessitava, que
executaram e até ultrapassaram os objetivos que a finança internacional quis impor
através do “Programa de Ajustamento”. E agora?
Agora
encontrámo-nos em período pré eleitoral na sequência do qual se adivinha que os
“aliados” poderão sair fragilizados. Para tentar diminuir esses riscos (porque querem manter os aliados) os
agentes da finança internacional entendem vir dizer que estamos
no bom caminho, encarregando as agências de rating,
neste caso a Fitch, de comunicar que nos poderão vir a tirar do meio do lixo,
mas sem com isso se comprometerem. No mesmo sentido o Primeiro-ministro vem dizer que
poderão existir condições para aumentar o salário mínimo (mas sem assegurar a
promessa), esquecendo-se de acrescentar que hoje o salário mínimo já
corresponde a menos 50 € do valor que tinha em 1974 (atualizado através do
índice de preços).
Como poderá
haver portugueses que, face a estas declarações, admitam que está a ser feito
bom trabalho e assim legitimem, pelo seu voto, a continuação da política atual
tem toda a oportunidade dizer que:
As agências de rating também votam
12 abril 2014
O TRABALHO, OS DIREITOS E O MERCADO
Os desafios ao futuro e a ética atingem profundamente o atual modelo de
desenvolvimento em que vivemos. Na sua principal orientação nota-se como é
visível o endeusamento à função do mercado que substitui o lugar do ser humano
como a centralidade da razão da vida em sociedade.
Os mercados são cada vez mais artificiais e manipulados, respondem a interesses
muito próprios e por esse motivo distorcem a sua vocação, intervindo na
tentação de regular áreas onde não deviam, pois a sua principal função é no que
respeita à regulação da economia mercantil e não em intervenção direta nas
políticas sociais e nos direitos dos trabalhadores.
O trabalho não pode nem deve ser definido ou comparado com qualquer definição
ligado ao mercantilismo mesmo que seja ao afamado mercado do trabalho (porque
este direito não deve passar pelos princípios da lei da oferta e da procura).
Também não se deve confundir com um simples recurso porque não é matéria “ recursos humanos “ ou ainda ” capital
humano, “ “ ativos humanos”, estas e
outras definições são erradas.
Muitos dos problemas graves que hoje nos atingem não nos deixam isolados,
alguns estão globalizados. Abordemos ligeiramente o mundo e olhemos para o que se passa no nosso mundo do trabalho, que é a
materialização da pessoa humana como se
de um produto inerte se tratasse sem precaver o seu sustento digno e que está a pôr em causa a constituição das
famílias e as necessidades sustentadas de crescimento demográfico.
Sustenta-nos uma grande interrogação o facto de não sabermos até onde se
irá com este caminho, que através do incumprimento desvaloriza o direito
negociado e legal dos acordos efetuados entre os trabalhadores, os governos e
as entidades patronais. Compromissos assumidos que se tornaram em direitos não
podendo estes ser alterados sem acordo de ambas as partes, porém sem mais, por simples despacho deixam de
valer abruptamente sem que haja qualquer renegociação apesar de os mesmos
direitos já existirem em plena prática e devidamente assumidos e assinados.
É bom chamar a atenção entre outros os casos, para o facto de as
aposentações e as reformas serem um direito de cada cidadão trabalhador adquirido
através da sua contribuição em pagamentos regulares, devidamente contratualizados
e depositados no estado para a sua
gestão, por este motivo nunca altera a sua verdadeira propriedade que é a dos
trabalhadores e por isso mesmo não podem nem devem ser alterados sem o
consentimento dos mesmos.
Cada vez mais o medo está a conviver todos os dias com os trabalhadores.
Há medo sobretudo nas novas leis, estas ajudam á exploração do trabalho e o
terror está intimamente ligado ao desemprego e à precariedade. Os seus efeitos
conduzem á aceitação humilde, sem reclamação de direitos, tornando a pessoa
mais obediente porque assustada. Olhemos para a facilidade com que se pretende
despedir. Todos sabemos que hoje qualquer trabalhador com mais de 55 anos
desempregado poucas hipóteses terá de voltar a ter um emprego.
É preciso ativar novas e justas políticas que dignifiquem o trabalho e a
pessoa humana, um salário mínimo mais justo que combata a crescente pobreza. Isso
passa por uma maior participação cívica tarefa de todos que humanize as
relações laborais, consagre o respeito e reponha todos os direitos
constitucionais e aqueles já negociados nas sedes próprias, como sejam os da
concertação social.
João Lourenço
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Actualidade; Direitos Humanos;,
Trabalho Digno
09 abril 2014
Talvez o princípio do delírio
No passado
dia 24 de Março o INE divulgou os resultados do Inquérito
às Condições de Vida e Rendimento das famílias no ano de 2012. Durante vários
dias os meios de comunicação social e as personalidades mais insuspeitas
sublinharam a importância do documento e a necessidade de ponderar adequadamente
os seus resultados e conclusões, em particular a da diminuição do rendimento das
famílias e as consequências que daí resultam.
Um
post já aqui publicado nesse mesmo
dia 24 de Março por Carlos Farinha Rodrigues sublinha, com rigor, a
conclusão de que em 2012 se verificou um aumento do risco de pobreza (de 17,9 para 18,7% da população), em
consequência das medidas de austeridade que o Governo tem vindo a impor. Em
termos comparativos, com anos anteriores, a severidade da pobreza é ainda maior
do que a que estes números revelam, pela circunstância de que o risco de pobreza
é definido como existindo quando o rendimento de uma família é inferior a 60%
da mediana dos rendimentos do ano. Ora, como os rendimentos vêm diminuindo,
isso significa que o valor equivalente a 60% da mediana dos rendimentos de um
ano é inferior ao valor que corresponde a 60% da mediana dos rendimentos de
anos anteriores.
Importa
sublinhar que as famílias que têm rendimentos inferiores a 60% da mediana não
têm rendimentos todos iguais. O agravamento do risco de pobreza é mais brutal
para os jovens e os mais velhos tendo, como consequência, não apenas o maior
agravamento das suas condições de pobreza mas, também, das condições de
sustentabilidade da sociedade portuguesa, em termos sociais mas, também,
em termos económicos.
Nunca é demais
ter presente as conclusões do estudo do INE; no entanto, entendi aqui voltar ao
assunto porque muita “boa” gente rapidamente as esquece ou se comporta como se
as tivesse esquecido. Vem isto a propósito de um Programa televisivo emitido nopassado dia 7, em que intervieram, um economista (também Conselheiro de
Estado) e um jurista que, também, faz de economista, Programa esse que se
propôs como tema a discussão a pobreza em Portugal.
Pois bem, o
tema do empobrecimento em Portugal foi apresentado como um “tema sobre que gira
alguma confusão”. O animador do Programa propôs-se contribuir para que durante
a sessão se fizesse luz sobre a questão. Para o efeito, acrescentou que o seu
convidado tem uns quadros que certamente tudo esclarecerão. Importa sublinhar
que este animador tem por hábito procurar esclarecer, as questões que leva ao
Programa, através da apresentação dos números e gráficos que aí apresenta. Deduz
a mais-valia do esclarecimento pelo facto de que “quem por aí anda a falar
destas coisas não tem números nem gráficos, nem percebe nada disto”.
Independentemente
da eventual objetivação que pode ser dada à argumentação com a apresentação de
números e gráficos, importa esclarecer que quaisquer números e gráficos são
destituídos de qualquer valia quando, como é o caso, não se revelam as suas
fontes e as metodologias utilizadas para os obter. Isto é, sem a explicitação
destes pressupostos, os dados de um interlocutor valem tanto como os dados de
um outro interlocutor que tenha idêntico comportamento.
Mas vejamos
alguns pontos da "conversa" realizada. O economista convidado
começou por declarar que adotaria uma abordagem macroeconómica, já que não possuía
dados que lhe permitissem ter em conta o comportamento das famílias. Será que o
INE lhe bloqueou o acesso aos dados do Inquérito às Condições de Vida e de
Rendimento e que o Inquérito não tem impacto macroeconómico? Não parecendo que tal bloqueamento
tenha existido, então, a única conclusão que se pode retirar é a de que o
Estudo do INE foi voluntariamente afastado da reflexão.
Em
alternativa o que é que foi feito? Começou por ser afirmado que a pobreza em
Portugal não era tão grave quanto tem andado por aí a ser proclamado. Para
justificar esta afirmação foi utilizada uma argumentação verdadeiramente
espantosa.
Foi
introduzida a distinção entre a pobreza real (a que de facto existe) e a
pobreza “percebida” (a que se percebe!), que não existe, mas que as pessoas
percebem que existe. E porque é que as pessoas percebem uma coisa diferente da
que é efetivamente real?
A explicação
dos intervenientes no Programa é muito simples: as pessoas sentem-se mais
pobres do que aquilo que de facto são, porque deixaram de, como anteriormente, se
poder endividar e, por isso, o acréscimo de rendimento que obtinham por essa
via passou a ser componente do seu sentimento de pobreza.
Fantástico!
Mais uma vez,
os pobres andaram a gastar acima das suas possibilidades (do seu rendimento
real). Vêm daí grande parte das dificuldades que o país atravessa, incluindo as
da dívida pública! As transferências sociais que procuram tornar menos severa a
pobreza não são uma componente importante da dívida pública, para o demonstrar?
Está visto!
Assim se percebe que não foram os desmandos financeiros que provocaram a crise;
nem a dívida dos que obtiveram financiamentos para a realização de especulação
financeira; nem o financiamento a bancos que necessitavam de capitalização; nem
o pagamento de PPP; nem a aquisição de serviços de consultoria; etc., etc.
Então isto não é o
princípio do delírio? Outros capítulos virão a seguir, certamente.
04 abril 2014
Uma Deriva Perigosa
O Ministério da Educação
está a rever a rede escolar, nomeadamente através da fixação dos cursos
profissionais para 2014/5.
Ao contrário da prática
anterior, em que, para o efeito, o Ministério promovia reuniões nas escolas/agrupamentos
com representantes das Autarquias, para consensualizar os cursos a manter ou a criar
em cada escola/agrupamento, este ano o processo é conduzido pelos responsáveis perante
o Ministério e apresentado às escolas/agrupamentos como proposta final, isto é,
suprimindo, na prática, a participação do corpo docente.
Trata-se de um golpe na
gestão democrática das escolas que, deste modo, se vêem privadas de um
importante factor de ajustamento na colocação de professores, tanto mais que as
propostas feitas vão no sentido da redução dos cursos profissionais afectos a
cada escola/agrupamento.
Há quem veja nesta opção uma
deriva perigosa no sentido do encaminhamento intencional e pela via do facto
consumado para a crescente privatização do ensino público, já que limitar o
número e a variedade dos cursos profissionais disponíveis no ensino público é deixar em aberto
novas oportunidades ao sector privado lucrativo.
Seria desejável que os
deputados/as da Nação se debruçassem sobre o assunto e não deixassem que por
meros actos administrativos se vá desconfigurando o modelo social constitucional.
Na educação, como noutras situações similares.
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Actualidade; Educação; Estado Social;
01 abril 2014
O combate à desigualdade extrema
A persistência e, pior ainda, o agravamento das desigualdades na repartição de rendimentos é um fenómeno preocupante que tem vindo a alastrar na grande maioria dos países, incluindo não só aqueles tradicionalmente muito desiguais (onde Portugal se inclui), como também alguns outros, apontados como modelo de igualdade, designadamente os países nórdicos da Europa.
Com efeito, no passado mais recente, o impacto das políticas de austeridade, como se previa e veio a constatar, agravaram aquelas desigualdades, as quais, como é bem conhecido, têm impacto muito negativo, na ordem económica, social e política .
Importa acentuar que o agravar das desigualdades não acontece por uma qualquer fatalidade mas antes é o resultado de opções políticas tomadas em benefício dos detentores de maior poder económico. Infelizmente, contra toda a evidência científica, persistem preconceitos acerca das causas da pobreza e uma errada ideia de que as desigualdades ajudam ao desenvolvimento .
No ano de 2000, sob os auspícios da ONU, 189 países assinaram a Declaração do Milénio, a que se seguiu um acordo sobre oito Objectivos de Desenvolvimento (ODM), a serem alcançados em 2015. O primeiro desses ODM visava a redução a metade do número de pessoas a viver com menos de 1dólar por dia, depois actualizada a meta para 1,25 dólares. Os outros 7 objectivos, visavam problemas igualmente preocupantes, desde o acesso à educação, à saúde, à igualdade de género, à defesa da sustentabilidade ambiental, e o último era o compromisso para um partenariado global visando o desenvolvimento.
A seu tempo teremos um balanço do que foi o grau de cumprimento daqueles objectivos. Mas começam a aparecer avisos de que deveria haver uma iniciativa que cuidasse do que poderá ser o “post-ODM”, já que, não tendo sido plenamente resolvidos os problemas velhos, existe a certeza de que outros, igualmente sérios, surgiram entretanto. Seria, pois, desejável que, sem perder tempo, os responsáveis governamentais se reunissem para um ponto de situação e acordassem numa estratégia determinada a resolvê-los.
Organizações internacionais e investigadores das ciências sociais têm vindo a demonstrar como é urgente criar as condições para um desenvolvimento sustentável do ponto de vista económico, social e ambiental, sem o que as crises se irão repetindo com crescente gravidade.
O papel da ONU na promoção de um novo debate entre os Estados signatários da Declaração do Milénio poderá contribuir para uma maior consciência da responsabilidade que cabe a cada um deles no inconseguimento de alcançar as metas antes acordadas.
Num artigo publicado no passado dia 20 de Março em EIA Ethics & International Affairs, por Michael W. Doyle (especialista em Teoria das Relações Internacionais, Segurança Internacional e Organizações Internacionais) e por Joseph Stiglitz, com o título “Eliminating Extreme Ineguality: A Sustainable Development Goal, 2015-2030”, os autores apontam uma falha aos ODM de 2010, ao afirmarem que, ainda que todos aqueles objectvos tivessem sido atingidos, mesmo assim, no seu conjunto, eles não representariam uma visão completa e abrangente do Desenvolvimento Humano, não só porque limitados ao acordo dos estados membros em 2000, mas porque lhes faltou uma visão do desenvolvimento equitativo.
Propõem então que seja incluído nos novos ODM um nono objectivo que seria o da Eliminação da Extrema Desigualdade.
Concretizando a ideia, os seus autores focam tanto a desigualdade de rendimentos como a da riqueza , sendo as seguintes as duas metas a alcançar em cada um dos países :
- Até 2030 reduzir aquelas desigualdades de tal forma que o rendimento depois de impostos dos 10% do topo não ultrapasse o rendimento depois de transferências dos 40% mais pobres;
- Até 2020, estabelecer uma entidade pública, que, em cada país, avalie e relate os efeitos das desigualdades nacionais.
A escolha de um indicador construído com base nas situações extremas de desigualdade é justificada não só por serem aquelas as que maior visibilidade apresentam em muitos países, em todo o mundo, como pelo seu efeito maligno sobre o crescimento económico sustentável e destruidor da estabilidade social e política. Nos países, por exemplo os da Escandinávia, em que o ratio se aproxima do valor 1 parece haver um efeito positivo do “multiplicador de igualdade” que se manifesta em vários aspectos das sociedades, tornando-as mais eficientes e flexíveis, mais equitativas e estáveis.
Quanto à segunda meta, a justificação apresentada é a de que os países diferem não só pela medida da sua desigualdade como também pela sua cultura, pela tolerância às desigualdades de diferentes tipos e pela capacidade de mudança social.
Em suma, o que aqui nos é proposto vai muito para além de um exercício de cálculo e convida a uma regular e saudável auto-crítica das políticas que têm vindo a ser postas em prática e das razões profundas que levam a uma estranha complacência perante a extrema desigualdade.
Com efeito, no passado mais recente, o impacto das políticas de austeridade, como se previa e veio a constatar, agravaram aquelas desigualdades, as quais, como é bem conhecido, têm impacto muito negativo, na ordem económica, social e política .
Importa acentuar que o agravar das desigualdades não acontece por uma qualquer fatalidade mas antes é o resultado de opções políticas tomadas em benefício dos detentores de maior poder económico. Infelizmente, contra toda a evidência científica, persistem preconceitos acerca das causas da pobreza e uma errada ideia de que as desigualdades ajudam ao desenvolvimento .
No ano de 2000, sob os auspícios da ONU, 189 países assinaram a Declaração do Milénio, a que se seguiu um acordo sobre oito Objectivos de Desenvolvimento (ODM), a serem alcançados em 2015. O primeiro desses ODM visava a redução a metade do número de pessoas a viver com menos de 1dólar por dia, depois actualizada a meta para 1,25 dólares. Os outros 7 objectivos, visavam problemas igualmente preocupantes, desde o acesso à educação, à saúde, à igualdade de género, à defesa da sustentabilidade ambiental, e o último era o compromisso para um partenariado global visando o desenvolvimento.
A seu tempo teremos um balanço do que foi o grau de cumprimento daqueles objectivos. Mas começam a aparecer avisos de que deveria haver uma iniciativa que cuidasse do que poderá ser o “post-ODM”, já que, não tendo sido plenamente resolvidos os problemas velhos, existe a certeza de que outros, igualmente sérios, surgiram entretanto. Seria, pois, desejável que, sem perder tempo, os responsáveis governamentais se reunissem para um ponto de situação e acordassem numa estratégia determinada a resolvê-los.
Organizações internacionais e investigadores das ciências sociais têm vindo a demonstrar como é urgente criar as condições para um desenvolvimento sustentável do ponto de vista económico, social e ambiental, sem o que as crises se irão repetindo com crescente gravidade.
O papel da ONU na promoção de um novo debate entre os Estados signatários da Declaração do Milénio poderá contribuir para uma maior consciência da responsabilidade que cabe a cada um deles no inconseguimento de alcançar as metas antes acordadas.
Num artigo publicado no passado dia 20 de Março em EIA Ethics & International Affairs, por Michael W. Doyle (especialista em Teoria das Relações Internacionais, Segurança Internacional e Organizações Internacionais) e por Joseph Stiglitz, com o título “Eliminating Extreme Ineguality: A Sustainable Development Goal, 2015-2030”, os autores apontam uma falha aos ODM de 2010, ao afirmarem que, ainda que todos aqueles objectvos tivessem sido atingidos, mesmo assim, no seu conjunto, eles não representariam uma visão completa e abrangente do Desenvolvimento Humano, não só porque limitados ao acordo dos estados membros em 2000, mas porque lhes faltou uma visão do desenvolvimento equitativo.
Propõem então que seja incluído nos novos ODM um nono objectivo que seria o da Eliminação da Extrema Desigualdade.
Concretizando a ideia, os seus autores focam tanto a desigualdade de rendimentos como a da riqueza , sendo as seguintes as duas metas a alcançar em cada um dos países :
- Até 2030 reduzir aquelas desigualdades de tal forma que o rendimento depois de impostos dos 10% do topo não ultrapasse o rendimento depois de transferências dos 40% mais pobres;
- Até 2020, estabelecer uma entidade pública, que, em cada país, avalie e relate os efeitos das desigualdades nacionais.
A escolha de um indicador construído com base nas situações extremas de desigualdade é justificada não só por serem aquelas as que maior visibilidade apresentam em muitos países, em todo o mundo, como pelo seu efeito maligno sobre o crescimento económico sustentável e destruidor da estabilidade social e política. Nos países, por exemplo os da Escandinávia, em que o ratio se aproxima do valor 1 parece haver um efeito positivo do “multiplicador de igualdade” que se manifesta em vários aspectos das sociedades, tornando-as mais eficientes e flexíveis, mais equitativas e estáveis.
Quanto à segunda meta, a justificação apresentada é a de que os países diferem não só pela medida da sua desigualdade como também pela sua cultura, pela tolerância às desigualdades de diferentes tipos e pela capacidade de mudança social.
Em suma, o que aqui nos é proposto vai muito para além de um exercício de cálculo e convida a uma regular e saudável auto-crítica das políticas que têm vindo a ser postas em prática e das razões profundas que levam a uma estranha complacência perante a extrema desigualdade.
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