31 outubro 2013

Com os erros, alguns aprendem, outros preferem insistir neles

Deixo a sugestão de leitura de uma interessante entrevista a Alan Greenspan conduzida por Gillian Tett e publicada pelo Finantial Times. Ver aqui.

A sugestão vem a propósito do debate em curso acerca da Proposta de OE 2014.

Serve também de apelo aos Professores de Economia das nossas Universidades a que revejam os paradigmas teóricos que, acriticamente, transmitem aos seus alunos, sob a capa de uma pseudo legitimação de um pensamento económico monolítico, ignorando o fracasso provado da macroeconomia e dos modelos em que se apoia e descurando a economia política, bem como o contributo de saberes de outras áreas disciplinares.

29 outubro 2013

Austeridade e dívida privada


A insistência com que os nossos governantes têm argumentado com os malefícios da dívida pública, procurando assim justificar uma brutal austeridade, tem feito passar para segundo plano a outra dívida, a dívida privada, a das empresas e das famílias. 

Contudo, um estudo[1] recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) vem alertar para que uma elevada dívida privada é mais prejudicial ao crescimento do que uma elevada dívida soberana. E conclui afirmando que o impacto negativo de uma dívida soberana excessiva só se faz sentir, reduzindo o crescimento, quando as famílias e as empresas também estão muito endividadas.

É bem sabido como as políticas de austeridade têm afectado a saúde da economia: empresas com dívidas elevadas, perante a contracção da procura que aquelas politicas reforçam, entram em acrescidas dificuldades para pagar os empréstimos bancários e não pensam em investimento de expansão nem se modernizam.

Por seu turno, os bancos ficam mais vulneráveis com os créditos “mal parados” e tendem a avaliar com redobrado rigor os riscos de novos empréstimos, deixando de cumprir a sua função, na medida desejável, em particular junto das PME.

É claro que estes mecanismos de propagação são de há muito conhecidos, mas a verdade é que as politicas de austeridade na zona euro, têm dado a primazia à redução, a todo o custo, das dívidas soberanas, como se elas fossem a raiz de todos os problemas e como se, uma vez atingidas as metas arbitrariamente impostas, ficasse aberto o caminho para a prosperidade.

Em Portugal, está em foco permanente a dimensão da dívida pública, enquanto o mesmo não se passa quanto à dívida privada.

 Contudo, é preocupante notar que a dívida privada portuguesa excedia, em 2012, 250% do PIB (ou seja, o dobro do peso da dívida pública que era então de 124% do PIB), colocando-a entre as situações mais críticas na zona euro.

Se, para além disto, tivermos em conta que a maior parte da dívida privada portuguesa respeita, não às famílias, mas às empresas não financeiras, e que este endividamento tem vindo a aumentar desde o início da crise, torna-se clara a dimensão das dificuldades que as nossas PME estão a atravessar, quando, para muitas, os seus lucros antes de impostos são absorvidos pelo pagamento de juros, tornando-as em empresas em situação precária.

Metade da dívida das empresas não financeiras seria detida, em Portugal, por estas empresas em situação precária!

A sobrevivência de um tecido empresarial, de que depende o futuro da nossa economia e a criação de emprego digno, torna assim inadiável a adopção de políticas de apoio especialmente dirigidas às PME, ao mesmo tempo que se deve por um travão ao caminho destruidor da austeridade.

Sobram as interrogações:

Até que ponto pode esperar-se alguma inflexão nas políticas de austeridade, ditadas, como têm sido, pelos interesses imediatos dos credores e pela vontade de um núcleo de países da União Europeia?

Quantas vezes mais será necessário ouvir reputados economistas comprovarem que nenhuma economia retomou a via da prosperidade com medidas de austeridade?

Que perspectivas de solução para a excessiva dívida privada?

Até quando a economia real continuará a ser secundarizada por causa dos interesses dos investidores especulativos que lucram com a crise das dívidas soberanas?
 

[1] Conforme referido pelo semanário The Economist no artigo The Euro crisis – Debtors’prison na sua edição de 26 de Outubro de 2013

24 outubro 2013

A (não) Reforma de Estado

Ainda não foi desta. É perfeitamente inacreditável a forma leviana e irresponsável com que o governo trata um assunto que deveria ser de primeira importância. Totalmente intolerável é a forma como responde perante os portugueses, também deste ponto de vista. O sentido de responsabilidade soçobrou por completo, afogado em incompetência, amadorismo e superficialidade, a falta de pudor faz o resto.
E, no entanto, tudo pode não passar de estratégia. A estratégia e visão de conjunto que têm estado ausentes da práctica governativa e que seriam indispensáveis à concepção de uma autêntica reforma de Estado, pode bem estar subjacente – na sua acepção menos nobre- ao sucessivo adiamento do esperado anúncio. A ser assim, tal sucederá essencialmente por duas razões.
A primeira, tem a ver com a grande questão ideológica: a reforma de um Estado que serve uma Constituição democrática não poderá reger-se por princípios neoliberais, como os que presidem à desigualdade na repartição dos rendimentos, ao peso crescente dos rendimentos de capital face aos do trabalho ou à desigualdade de oportunidades, efectiva e em crescendo, no acesso à educação, à saúde e restantes componentes do Estado Social. Mesmo condenando este último à extinção e atropelando sucessivamente as disposições constitucionais, o modelo não serve na forma…
A segunda razão tem a ver com a impossibilidade técnica de proceder a uma tal reforma. Não só pela incompetência e visão parcelares, já referidas, como também, e sobretudo, pela impossibilidade que o governo tem de chegar a uma função de consenso social, desde logo no seu próprio seio. Assistimos, com efeito, a constantes reflexos de divergência de interesses e perspectivas entre os vários membros do governo, mesmo quando se trata de reforçar as medidas de austeridade, desígnio comummente apropriado. Ora tais divergências não deixarão de estar presentes no processo de reforma do Estado.
Finalmente, mas não menos importante, uma questão que a semântica ajuda a desocultar: em vez de um documento consensualizado que resultasse de amplo debate público ou, no mínimo, de um processo credível em que os diversos representantes sociais não recusassem participar, iremos ter um “guião”. Muito provavelmente, algo que “nos instrua” sobre como agir… contra os nossos próprios interesses. É que, na óbvia impossibilidade de uma verdadeira reforma, vai-se cortando o mal pela raíz, reduzindo o Estado à sua mínima expressão.

Margarida Chagas Lopes
24 de Outubro de 2013


22 outubro 2013

OE 14 – Empobrece o Presente. Hipoteca o Futuro.

A proposta de Orçamento de Estado para 2014 apresentada pelo Governo enferma de dois vícios graves que lhe retiram credibilidade e sustentabilidade.

 Não decorre de um indispensável enquadramento de Opções de desenvolvimento a médio prazo, fixando-se, mais uma vez, em meros cortes de despesa pública e exercícios de equilíbrios orçamentais. Estas Opções de desenvolvimento futuro são fundamentais em quaisquer circunstâncias, mas são-no, ainda mais, quando a situação económica e social do País é a que conhecemos.

Por outro lado, a proposta de OE 2014 toma por adquirido que o único farol da política económica do País é o da bondade da meta do saldo orçamental que se propõe atingir a qual, aliás, manifestamente, não poderá ser alcançada, pese embora o anunciado reforço da austeridade, com todas as suas previsíveis consequências negativas sobre as condições de vida das pessoas, das famílias e das empresas.

Assim começa a tomada de posição do GES (Economia e Sociedade) a propósito da Proposta de OE 2014 apresentada pelo Governo na Assembleia da República. A versão integral pode ser lida aqui.

21 outubro 2013

Querido monstro (a propósito do Orçamento de Estado que aí vem)

Estamos a viver um tempo de desesperança. Todos se interrogam: para onde é que isto nos leva? As respostas não se encontram e já se começam a desejar soluções extremas, que poderão pôr em causa o funcionamento democrático da sociedade, embora também se diga que elas serviriam para repor o perdido funcionamento democrático. Somos levados, por isso, a constatar que, na sequência das medidas de política que têm vindo a ser tomadas pelo Governo, desde a chegada da troika, a coesão económica e social entre os portugueses tem vindo a ser corroída de forma inexorável.
 
O Orçamento de Estado (OE) sempre tem constituído um instrumento importante de explicitação das opções de política económica do Governo, enquadrador e orientador das decisões dos outros agentes económicos. O OE era e deveria continuar a ser tomado como um fator de mobilização e de promoção do crescimento e do desenvolvimento.
 
Assistimos, hoje, à completa inversão das expetativas de todos os que de modo direto, ou indireto cruzam as suas decisões com as do Governo. Em lugar de transmitir energia positiva às decisões dos agentes económicos, o OE transformou-se num seu travão, que provoca toda a espécie de derrapagens e não fornece qualquer orientação quanto ao futuro. Não há um quadro previsível de estabilidade de política económica e a atitude mais corrente é a de todos se perguntarem, "o que é que poderá, ainda, vir aí".
 
As razões deste desnorte são conhecidas. Crê-se que a mãe de todos os nossos males é o deficit das contas públicas, ignorando que este é uma consequência do comportamento de muitas forças da economia, que não apenas o do Governo. Para além disso, omite-se, voluntariamente, que se o deficit, numa perspetiva de curto prazo, pode ser condicionado negativamente pelo crescimento das despesas, ele pode e deve, também, ser reduzido, e com maior sustentabilidade, através do aumento das receitas.
 
Com a sua política económica, o Governo surge como um monstro que suga todas as energias da economia e da sociedade. Acontece que essas medidas de política, sendo opção e convicção do Governo são, também, o resultado de orientações de poderes vindos do exterior. Contrariamente ao que se poderia pensar, as opções tomadas não o são a contragosto, são antes a consequência de uma convicção segundo a qual, para dar um futuro ao país, há que começar por destruir o Estado Social e, por essa via, o próprio Estado, com a configuração que adquiriu após o fim da 2ª Guerra Mundial e de que nos orgulhamos.
 
O regime de protetorado a que temos vindo a estar sujeitos em vez de ser repelido, torna-se, pelo contrário, desejado. Não surpreende, assim, que o monstro em vez de ser repelido seja, antes, acarinhado e ouvem-se, até, expressões do tipo “meu querido monstro”.
 
Vale a pena recordar que há pouco mais de uma semana o presidente da Comissão Europeia não teve pejo em afirmar que “haveria caldo entornado em Portugal, caso se verificasse instabilidade e falta de responsabilidade de todos os órgãos de soberania”. Referia-se, com isso, ao comportamento do Tribunal Constitucional. Até onde poderá ir a ameaça?
 
Esquecem-se, no entanto, os que se deliciam com tais afetividades com as forças do protetorado que, não há muitas décadas, atitudes semelhantes foram classificadas de “colaboracionistas” com as forças invasoras, com os resultados que se conhecem. Também hoje começa a tornar-se oportuno afirmar “Resistência precisa-se”.

17 outubro 2013

Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza
Um Mundo sem Discriminações



Um mundo sem discriminações foi o tema escolhido pra assinalar o Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza de 2013, escolha que resultou de um processo inédito de auscultação da voz dos pobres.

Trata-se de um tema que sensibiliza e interpela profundamente um grande número de pessoas que vivem na miséria e por causa dela sofrem, quotidianamente, de múltiplas exclusões, incluindo a de não poderem fazer ouvir a sua voz na elaboração de políticas e programas de acção que lhes dizem respeito.

Tão importante como assegurar um rendimento mínimo que permita a todas as pessoas condições de subsistência material com dignidade, é o reconhecimento do seu direito à segurança pessoal, ao respeito que lhe é devido, ao acesso efectivo a direitos básicos de educação, saúde, habitação, água potável, electricidade e saneamento, bem como o direito à valorização das suas capacidades e saberes.

A este propósito, vale apena deixar registo de um desabafo feito na primeira pessoa: O que custa  mais  quando  vivemos  na  miséria  é  o   desprezo.  Tratam‑nos  como  se  não servíssemos  para   nada,  olham‑nos  com  nojo,  até  nos  tratam  como  se   fôssemos inimigos. Nós  e  os  nossos filhos sentimos   isso  todos  os  dias,  e  isso  magoa-nos, humilha-‑nos  e   faz‑nos  viver  cheios  de  medo  e  de  vergonha.  (Edilberta  Béjar,  Peru).

Um mundo sem discriminações requer que se reduzam as grandes desigualdades na acumulação da riqueza e se promovam os mecanismos adequados para que fique garantida a maior equidade na repartição funcional e pessoal do rendimento gerado na economia, tanto a nível de cada país e região como no plano mundial.

16 outubro 2013

OE 2014 – Credibilidade e sustentabilidade precisam-se

O Orçamento do Estado para 2014, ontem apresentado pelo Governo, enferma de dois vícios graves que lhe retiram credibilidade e sustentabilidade.

Com efeito, o OE 2014 não decorre, como seria desejável, de um indispensável enquadramento de Opções de desenvolvimento a médio prazo, fixando-se, mais uma vez, obcessivamente, num exercício de severos cortes de despesa em remunerações de funcionários públicos e prestações sociais e acréscimos envergonhados de receitas, enquadrados por meros exercícios de forçados equilíbrios orçamentais.

Por outro lado, o OE 2014 toma por adquirida a bondade da meta de um saldo orçamental de 4%, que elege como objectivo nuclear, subestimando o impacto da sua respectiva incidência sobre as demais variáveis macroeconómicas (consumo privado, procura interna, produto interno bruto), variáveis estas que, por sua vez, retroagem sobre as contas do Estado, quer pela via de incidência das receitas quer enquanto potencial agravamento de despesa (reforço de prestações sociais) e, assim sendo, o objectivo fixado, manifestamente, não irá ser alcançado, pese embora o reforço da austeridade imposta aos cidadãos com todas as suas previsíveis consequências negativas sobre as condições de vida das pessoas, o desemprego e o não crescimento económico.

A avaliar por comportamentos anteriores, a maioria parlamentar irá viabilizar a proposta do Governo e pouco aproveitará das críticas que a Oposição não deixará de fazer. Resta esperar que a opinião pública reaja, que a Academia não se refugie em sepulcrais silêncios e que cumpram o seu papel de vigilância e supervisão democrática os diferentes Órgãos do Estado.