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18 maio 2015

Pobreza e Exclusão Social: Não é possível discutir o futuro sem conhecer o presente!

Promovido pela Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN Portugal) e por um conjunto alargado de representantes da sociedade civil, realiza-se hoje na Assembleia da Republica um importante debate sobre a necessidade de elaboração de uma estratégia nacional para a erradicação da pobreza e da exclusão social.

“Ouvir as propostas dos programas eleitorais dos partidos políticos relativamente a esta temática”, acreditando que o próximo acto eleitoral pode “marcar a diferença através de uma aposta clara na coesão social, onde os direitos dos cidadãos são protegidos e onde a luta contra a pobreza e a exclusão social se assume como uma prioridade na agenda política», constitui o principal objectivo dos promotores deste debate.

Mas não é possível discutir o futuro sem entender claramente o presente e, em particular, a tragédia social que se abateu sobre o nosso país no passado recente.

As políticas de austeridade implementadas desde 2010 traduziram-se num inequívoco aumento da taxa de pobreza que, entre 2009 e 2013, passou de 17.9% para 19.5%. Este valor reconduz-nos aos níveis de pobreza registados no início do século. De facto, é necessário recuar a 2003 para encontrar um nível de pobreza superior ao verificado em 2013.

A intensidade da pobreza, uma medida de quantos pobres são os pobres, alcançou em 2013 o valor de 30.3%. Este valor traduz não somente um pesado agravamento face aos valores ocorridos nos anos anteriores mas constituí mesmo o valor mais elevado desde o início da série iniciada pelo INE em 2004. Comportamento similar registaram os indicadores de privação material, traduzindo uma forte degradação das condições de vida das famílias.

Os números anteriores são conhecidos. O forte retrocesso registado em termos sociais, o agravamento das situações de pobreza e de exclusão social são hoje factualmente incontestáveis quer a nível nacional quer internacionalmente.

Mas permanecem áreas menos conhecidas dos efeitos das políticas seguidas, que alimentam mitos e criam uma nuvem de incerteza que, em última instância tendem a justificar essas mesmas políticas ou, no mínimo, a sua inevitabilidade.

Pretendemos aqui analisar dois desses mitos sobre o que se passou nos últimos anos em Portugal.

O primeiro, provavelmente o preferido do primeiro-ministro e do Governo, é a de que as políticas de austeridade como os cortes dos salários e das pensões tentaram sempre isentar as famílias e os indivíduos mais pobres.

O segundo, aceite por muitos comentadores críticos do processo de empobrecimento seguido, é a de que a crise foi particularmente sentida pela classe média.

Ambos os mitos não são mais do que… mitos. A realidade, infelizmente, é bem diferente.

O gráfico seguinte ilustra a variação percentual do rendimento médio dos vários decis da distribuição do rendimento equivalente, entre 2009 e 2013.

Variação do Rendimento Disponível por Adulto Equivalente 2009-2013 por decis  (%)


Fonte: INE, ICOR 2010 e ICOR 2014



 
 
 
 
 
 
 
 
Todos os decis registam um decréscimo do seu rendimento disponível como consequência da profunda crise económica e das políticas seguidas. O rendimento dos 10% mais ricos regista um decréscimo de cerca de 8%. Os rendimentos dos decis 3 a 7 descem menos de 7%. O rendimento dos 10% mais pobres diminui 24%!
Nem as classes médias foram as que mais sofreram com as políticas seguidas nem os mais pobres foram poupados no processo de empobrecimento.
A forte contracção dos rendimentos dos indivíduos mais pobres, gerada pela conjugação da crise económica, do desemprego e do forte recuo das transferências sociais é a verdadeira imagem de marca das políticas de ajustamento seguidas.

Sem reconhecer esta realidade trágica é fútil falar num futuro de erradicação da pobreza. Como sempre o passado não é exemplo mas é lição. E a lição a tirar é a da necessidade urgente de mudar de políticas, de assegurar um crescimento sustentável e inclusivo que recoloque a solidariedade e a justiça social no centro das diferentes políticas. 

     Carlos Farinha Rodrigues

08 maio 2014

Para uma contabilidade das perdas: A destruição das bases do conhecimento

Como se tem vindo a reflectir em alguns posts deste e doutros blogues, a "saída" da troïka de Portugal, qualquer que seja a modalidade seguida - para o cidadão comum será sempre opaca e turva... - não virá a alterar substancialmente o actual estado de coisas. Em nossa opinião, aquele facto não constitui, por isso, qualquer marco de referência a não ser, muito provavelmente, o de transição para período de ainda maiores sacrifícios. Não é, por isso, ainda a altura de se poderem fazer balanços finais.

No entanto, nesta fase do processo tornam-se já extremamente visíveis os efeitos destruidores das políticas de austeridade em diversos domínios, como no processo de desenvolvimento do conhecimento.

Mercê do acumular de opções conservadoras, escassez e má orientação de recursos e, mais recentemente, da recuperação neoliberal dos mecanismos de mercadorização do conhecimento, o seu progresso tem vindo a fazer-se em Portugal de forma lenta e modesta, quando em confronto com a maioria dos Estados Membros Europeus. Este facto é tanto mais grave quanto se sabe que o processo social de conhecimento evolui pelo desenvolvimento de efeitos de externalidade e de arrasto que se propagam a uma série de sectores sociais e económicos e se caracteriza também pela natureza cumulativa e auto-sustentada da maior parte dos sucessivos resultados.

Por outro lado, uma questão central em Economia  discute a natureza do bem conhecimento. Partindo da concepção clássica de conhecimento como bem público, veio progressivamente a constatar-se que cada vez menos estavam salvaguardados os princípios da não rivalidade e da não exclusão, dada a apetência pela privatização ou, no mínimo, restrição de acesso ao conhecimento específico útil para as organizações, através de patentes, licenças e mecanismos afins. Assim, a codificação progressiva do conhecimento, a par da legítima protecção dos direitos de autor que lhe estejam subjacentes, veio a tornar o conhecimento num bem misto ou, mesmo, privado.

Estes factos associam-se à necessidade de se vir a constituir uma visão global e holística do processo de conhecimento, indispensável a uma articulação socialmente eficaz dos seus constituintes fundamentais: a educação, a investigação e desenvolvimento, a inovação. Respondendo, sinteticamente, pela promoção de competências de base e superiores, pelo desenvolvimento de estudos avançados e de nível científico e pela promoção da capacidade de absorção, pelas organizações, daquelas competências e qualificações, a contribuição conjunta daqueles domínios para o processo de conhecimento só será eficaz se for servida por uma estratégia de desenvolvimento do conhecimento eficaz e efectiva. Na ausência desta - como sucede em casos como o Português -  e face à não motivação, escassez de recursos e conflito de interesses da iniciativa privada para intervir em tal domínio, o papel do Estado é fundamental no processo de correcção dos inevitáveis desequilíbrios, especialmente agora que o conhecimento se torna cada vez mais rapidamente obsoleto.

E quais são, essencialmente, aqueles desequilíbrios? Entre outros, o desemprego e emigração das altas qualificações, o estatuto cada vez mais precário dos bolseiros de investigação e cientistas, a desqualificação progressiva da estrutura de ocupações, a baixa produtividade das organizações. E, essencialmente, a ausência ou redução extrema dos desejáveis efeitos positivos em termos de crescimento sustentado e desenvolvimento económico e social.

Mas regressemos ao estado da situação, indicando dois ou três resultados muito simples mas elucidativos. Depois de seis a sete anos de profunda crise económica e social e de três anos de austeridade e de inconsistência das políticas públicas, a actuarem de forma pró cíclica quando deveria ter sido o oposto, constatamos então, entre outros resultados: 

1- apesar de um notável progresso desde o início do século, a taxa de abandono precoce da escola, no grupo dos 18 aos 24 anos de idade, era em Portugal de 19,2% em 2013, terceira pior situação depois de Malta e Espanha (PORDATA, www.pordata.pt);

2- a percentagem da população, dos 25 aos 64 anos, tendo concluído o Ensino Superior, em 2013, era em Portugal de 17,3% contra 25,1% na média da União Europeia (EUROSTAT, http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/statistics/search_database) ;

3- em 2012, a percentagem da população activa portuguesa com ocupação em actividades de Ciência e Tecnologia, 22,6%, estava cerca de 10 p.p. abaixo do correspondente valor europeu (EUROSTAT, http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/science_technology_innovation/data/database); 

- ...

Porquê a escolha destes indicadores? Porque ao mesmo tempo que o Estado português assinava com a Comissão Europeia (e também FMI e BCE) o Memorando de Entendimento que nos impôs os sacrifícios e retrocessos conhecidos, ratificava igualmente a Estratégia 2020, pela qual se comprometia a melhorar significativamente o desempenho nos domínios acima referidos e a atingir, em 2020, as metas de 10% (1), 40%, na população de 30 a 34 anos (2) e pelo menos 3% do PIB investido em investigação e desenvolvimento, contra os actuais 1,5%...

E qual tem, então, sido o comportamento do Governo associado a estes resultados?

- uma diminuição sistemática, a partir de 2009, do investimento público executado, afecto a educação, em percentagem do PIB: em 2012, e após uma quebra de cerca de 10% naqueles três anos, situávamo-nos, face a este indicador, num nível idêntico ao executado em 1991 e nunca, entretanto, retomado;

- a percentagem de gastos públicos em investigação e desenvolvimento decresceu igualmente cerca de 10% desde 2009, situando-se em 2012 num nível inferior ao alguma vez atingido desde 2000;

- entre 2007 e 2012, o número de bolsas de doutoramento financiadas publicamente diminuíu 40%, sendo visível já um recuo significativo no número de doutorados por ano;

- do mesmo modo que se verificam retrocessos ao nível das competências de base: as notas de exame em Matemática e Português do 3º ciclo diminuíram drasticamente no último ano e, ainda mais significativo, o inquérito PISA 2012 revela-nos ter havido uma diminuição de 4 p.p. no índice de literacia dos jovens portugueses do 9º ano, contra um progresso importante registado na edição anterior daquele inquérito (OCDE, www.oecd.org/pisa )...

É altura de relembrarmos o que atrás referimos quanto à natureza cumulativa, parcialmente auto-sustentada e temporalmente duradoura dos progressos do conhecimento. Ou, de forma inversa, que interrupções e cortes no financiamento dos motores do conhecimento, como a educação e a investigação e desenvolvimento, tendem a ter repercussões negativas e exponenciais ao longo do tempo. E, por ora, só estamos a assistir às primeiras manifestações.

Na ausência de uma estratégia própria e de compromisso efectivo com o bem estar económico e social do País - que deveria constituir o principal desígnio face aos grandes interesses internacionalmente impostos - o Governo português comporta-se como o Arlequim servidor de dois, ou vários, amos: não cuidando de verificar se as ordens recebidas são compatíveis ou antagónicas, como sucede com os ditames da troïka e os objectivos da Estratégia 2020, apresta-se a segui-las disciplinada mas inconsistentemente, sempre fazendo tábua rasa dos verdadeiros interesses nacionais.

Margarida Chagas Lopes

(adaptado de "The Development of Knowledge in Portugal – a slow and unsustainable progress", disponível em